Cobertura Summer Breeze Brasil 2023 – Dia 30

Segundo dia do festival reuniu dezenas de milhares de headbangers e encerra evento com sucesso

Por Gustavo Franchini

O Summer Breeze Brasil chega ao segundo (e último) dia com força total! O público que lotou o Memorial da América Latina enfrentou um sol persistente que não atrapalhou em absolutamente nada as apresentações, muito pelo contrário, pareceu dar ainda mais energia para fechar o evento com chave de ouro. Cobertura das bandas: Finntroll, Beast in Black, Stratovarius, Sinistra, Evergrey, H.E.A.T, Testament, Kreator e Avantasia.

Sun Stage

Finntroll

Há uma tentativa genuína de criar um estilo original no som dos finlandeses do Finntroll, que unem o metal melódico com pitadas de death e folk. O resultado lembra um pouco Children of Bodom, só que mais calcado na velocidade e uma pegada obscura, deixando de lado os arpejos mais animados dos seus conterrâneos. Músicas como “Människopesten” e “Nattfödd”, cantadas curiosamente em sueco (pelo fato do ex-vocalista ser responsável pelas letras e manter a tradição em seu idioma), empolgaram levemente os presentes que estavam dando uma força para a banda que calhou de tocar em um horário próximo a gigantes do festival, como Testament, o que ocasionou na redução de espectadores.

Durante “Solsagan”, uma rodinha se formou com o vocalista Mathias ‘Vreth’ Lillmåns vociferando palavras que 99% da plateia não entendeu, mas batiam cabeça mesmo assim, pois o importante é curtir ao máximo o momento. Senti falta de um tecladista ao vivo, já que utilizaram pré-gravações e samples para substituir a sonoridade que, a meu ver, era a mais importante na apresentação, considerando os arranjos que criaram nas músicas em estúdio.

Fotos / Setlist (Finntroll)

Beast in Black

Uma revelação do power metal contemporâneo, o quinteto Beast in Black, liderado pelo simpático vocalista Yannis Papadopoulos que, além de levantar bastante o público, ainda possui um alcance vocal e agudos com drive pra fã nenhum do estilo botar defeito, depois de terem sido aclamados como banda de abertura para o Nightwish no final do ano passado, se firmaram definitivamente como bem quistos no país. A cozinha é formada também pelos guitarristas Anton Kabanen e Kasperi Heikkinen, o baixista Máté Molnár e Atte Palokangas nas baquetas (desde 2018).

Com músicas que, apesar de não fugirem muito dos clichês que inclusive estamos acostumados a ouvir de bandas que estavam no mesmo dia do festival (leia-se Avantasia e Stratovarius), o show cumpre seu papel de divertir do início ao fim. Canções como “Sweet True Lies” e “Moonlight Rendezvous” agitaram a todos, o que foi bonito de ver. Contudo, novamente se notou a ausência de um tecladista ali em cima no palco, pois assim como rolou com o Finntroll, a banda utilizou pré-gravações e samples para substituir arranjos do instrumento, ao invés de ter um integrante oficial ou convidado para executar o trabalho que faria toda a diferença.

Fotos / Setlist (Beast in Black)

Stratovarius

E se estamos falando de power metal melódico, não podemos deixar de falar de uma das bandas pioneiras em tantas harmonias que construíram a base do estilo, que chega a ser difícil fazer uma lista. Donos de riffs lendários que acalentaram corações por décadas, o Stratovarius resumiu os seus quase 40 anos de carreira em músicas que todos sabiam cantar o refrão, como “Father Time”, “Paradise”, “Hunting High and Low” e o hit “Black Diamond”. Mesmo com apenas dois integrantes da era de ouro do grupo, o vocalista Timo Kotipelto e (finalmente) o tecladista Jens Johansson, o entrosamento estava bem claro ao se juntarem a Matias Kupiainen (guitarra), Lauri Porra (baixo) e Rolf Pilve (bateria).

O que incomodou logo de cara foi o volume do som no palco que estava muito abaixo de outras apresentações e que, apesar da melhora ao longo do setlist, impactou bastante grande parte das músicas. Aliás, deveriam estar no Hot/Ice Stage (assim como o Accept na noite anterior), pois lotaram o espaço como nenhuma outra banda que passou por lá. Deixando de lado os pontos negativos, vamos agora ao que impressionou: a qualidade da banda como um todo. Para executar canções complexas e rápidas, considerando que chegaram a fazer um medley de “Stratosphere” e “Holy Light”, ambas apenas instrumentais, e obviamente a voz poderosa de Kotipelto que já passando dos 50 anos de idade, consegue ainda segurar muitas notas altas, não é pra qualquer um, não.

Além de estarem em ótima forma, o bom humor se faz presente durante o solo de Lauri Porra, que brinca com o seu sobrenome ao ter conhecimento de que no Brasil é uma palavra informal com significado chulo. Claramente o público estava exausto depois de duas noites seguidas de festival e dezenas de bandas se apresentando em sequência, mas mesmo com as palmeiras atrapalhando a visão dos que não quiseram se aventurar além da metade da linha do público, ainda encontravam forças para pular, cantar e aplaudir em diversos momentos.

Fotos / Setlist (Stratovarius)

Waves Stage

Sinistra

A curiosidade bateu forte para conferir uma das bandas nacionais que estavam presentes no segundo dia do festival, o ‘dream team’ Sinistra, projeto que com apenas dois anos de existência já mostra uma força espetacular. Difícil não sair coisa boa quando se tem no palco músicos tão experientes e competentes. Me refiro ao vocalista Nando Fernantes, o guitarrista Edu Ardanuy, o baixista Luis Mariutti e o baterista Rafael Rosa, que estavam lá para representar com muita qualidade o heavy metal em português através de canções de seu álbum autointitulado, lançado no ano passado.

Dos poucos que estavam presentes (devido ao horário de apresentação, que competiu com o Stratovarius e o headliner Parkway Drive, além de ser no palco exclusivo), dava pra perceber o brilho nos olhares fixos dos que prestavam atenção na explicação das letras antes de cada música por parte de Nando, além dos solos transcendentais de guitarra do mestre Ardanuy e na percepção de que esse time precisa seguir em frente para mostrar ao mundo para o que vieram: compor e tocar boa música, carregada de significado e paixão acima de tudo.

A influência do eterno Dio na voz de Nando é bem clara e, mesmo após enfrentar a perda recente da mãe e um episódio de dengue, manteve uma técnica invejável nas notas, cantadas com muita raça e humildade. Mariutti com suas poderosas linhas de baixo, que todos nós já conhecemos e admiramos. Rafael e uma pegada animal, que destreza! Agora, precisamos destacar o status quase que divino das seis cordas tocadas à beira da perfeição por Ardanuy, que não à toa é considerado um dos melhores guitarristas do país. Parabéns e continuem o belo trabalho!

Fotos / Setlist (Sinistra)

Evergrey

Mesmo sendo a última banda a se apresentar na primeira edição do festival, os suecos do Evergrey parecem já ter conquistado a admiração dos brasileiros com seu prog metal de altíssima qualidade, capitaneados pelo excelente guitarrista e vocalista Tom S. Englund. Todo o cansaço justificado do público pareceu não ter tanto efeito durante a execução de músicas como “A Touch of Blessing” e “Recreation Day”, que por si só já representam todo o êxito artístico do quinteto, composições que foram gravadas há 20 anos e são tão atuais. A profundidade das letras, o instrumental que domina o ambiente e a melancolia nos vocais faz com que tudo soe tão genuíno, natural e, ao mesmo tempo, toca nas emoções no cerne do ser.

Focando em músicas da discografia mais recente, em especial no recém-lançado A Heartless Portrait (The Orphean Testament) (2022), o Evergrey fez um show maduro, cadenciado e que reuniu em frente ao palco grande parte da plateia. Em pé no Waves Stage, praticamente lotando o ambiente como na palestra do Bruce Dickinson, muitos cantavam, aplaudiam, pulavam e demonstravam todo o carinho pela banda. Realmente um momento bem único no festival, conectando fãs com artistas de uma maneira raramente vista, proporcionado pelo que, na opinião de diversas presentes, foi o melhor palco do evento.

Apesar de Englund ser o único membro da formação original, o guitarrista Henrik Danhage, o tecladista Rikard Zander e o baterista Jonas Ekdahl estão desde a época de ouro da banda com os sensacionais discos Recreation Day (2003) e The Inner Circle (2004), sendo então Johan Niemann (baixo) o mais recente integrante, desde Glorious Collision (2011). O entrosamento desta cozinha é impressionante, parece que são amigos de infância tocando juntos. Agora resta esperar que voltem em novembro como prometeram!

Setlist (Evergrey)

Hot/Ice Stage

H.E.A.T

Está aí outra grata surpresa do festival. Talvez pelas canções bem calcadas no hard rock farofa dos anos 80, talvez pela presença de palco retumbante do vocalista Kenny Leckremo, talvez os dois. O que é certeza é que o show do H.E.A.T cativou de imediato o público que compareceu cedo para conferir as primeiras bandas do dia; e definitivamente não se arrependeram. Com músicas muito inspiradas e que combinam com o sol que rasgava as nuvens pálidas no céu, a banda focou em músicas do bem recebido álbum H.E.A.T II (2020), que quando gravado ainda contava com EriK Grönwall nos vocais (que também estava no evento com o Skid Row), representado por “Come Clean”, “Dangerous Ground”, “One by One” e “Rock Your Body”.

Realmente é preciso ter muita humildade para assumir novamente o posto no grupo e ainda cantar diversas músicas que foram compostas pelo ex-integrante por anos. Leckremo demonstra que se importa mais em mostrar que voltou para ficar, seja através de sua performance vocal, seja por ser um frontman ímpar, seja pela clara alegria de estar ali pela primeira vez em terras brasileiras, tocando em um dos palcos principais e agregando novos fãs. A receptividade impressionante do público deixou claro que podem voltar mais vezes que serão muito bem-vindos!

Fotos / Setlist (H.E.A.T)

Testament

Sempre sinônimo de sucesso ao visitar o nosso país, o thrash metal do Testament passou pelo ‘teste do tempo’ e, completando 40 anos de carreira, continuam sendo bastante relevantes no cenário. Com o setlist calcado majoritariamente nos dois primeiros álbuns, The Legacy (1987) e The New Order (1988), além de The Gathering (1999) e lançamentos mais recentes, a banda fez o público levantar poeira, apesar da presença de muitas músicas de longa duração, o que pode tornar o show cansativo para o formato do evento. Ainda assim, músicas como “Rise Up”, “Children of the Next Level” e “The Formation of Damnation”, tocadas com brilhantismo por um time de respeito, sem intervalos entre uma paulada e outra, de fato é um prazer de assistir/ouvir.

Os vocais rasgados de Chuck Billy, unido às guitarras de Alex Skolnick e Eric Peterson, o baixo de Steve DiGiorgio e a bateria de Gene Hoglan, se mostraram eficientes na tarefa de representar com competência o gênero em um dia que seria “disputado” em atenção por outro grande nome da cena, o Kreator (coincidentemente ambas foram criadas nos anos de 1982/3). E a impressão que causa é que uma banda se conecta à outra, tamanho o peso de suas canções. Já acostumados em lidar com o público brasileiro, Billy e Cia agradam mais uma vez e a plateia responde com muito headbanging.

Fotos / Setlist (Testament)

Kreator

Os alemães do Kreator vieram para finalizar o que o Testament iniciou mais cedo. Liderados pelo competente guitarrista/vocalista Mille Petrozza, a ‘cara da banda’, já era possível ver ao cair das cortinas que a produção de palco seria diferenciada. Bonecos em estacas, monstros ao fundo, pirotecnia, iluminação rebuscada, o quarteto dominou não só o palco, mas a mente da plateia, que formava uma rodinha (moshpit) atrás da outra, inclusive a maior de todas do festival, que ocupou um círculo gigantesco no meio de todos.

O setlist baseado na turnê Klash of Titans pareceu um ‘best of’ com os hits de 10 álbuns diferentes, algo que realmente é muito raro de se ver, se considerar a longevidade da carreira da banda com uma discografia tão vasta. Destaque absoluto para “Violent Revolution”, do disco homônimo de 2001, que possui um dos melhores riffs do gênero.

Fotos / Setlist (Kreator)

Avantasia

Para quem acha que o metal melódico já não tem a mesma força de outrora, vá imediatamente a um show do Avantasia, pois o vocalista do Edguy, Tobias Sammet, traz seu mais bem-sucedido projeto para um público completamente apaixonado por cada nota de álbuns que marcaram época como The Metal Opera (2001) e The Scarecrow (2008). E aí é uma chuva de boas músicas com as belíssimas “Farewell” e “Reach Out for the Light”, além de “Lost in Space”, “Twisted Mind” e “Shelter from the Rain”.

Interagindo a todo momento com a plateia, demonstrando total respeito e carinho pelos fãs, que de fato estavam em grande número (dava pra ver pelas camisetas e cantorias em uníssono), Tobias desta vez trouxe convidados mais do que cativantes para dividirem as vozes: Ralf Scheepers (Primal Fear), Ronnie Atkins (Pretty Maids), Bob Catley (Magnum), Eric Martin (Mr. Big), além de trechos com Herbie Langhans (Firewind), Chiara Tricarico e Adrienne Cowan, todos com uma performance impecável. Cowan, por sinal, devido à sua poderosa voz e interpretação marcantes, instantaneamente se conectou com o público, apesar de ter alterado algumas impostações vocais ao vivo (se comparado à gravação em estúdio) para se adequar ao seu alcance vocal.

A banda instrumental de apoio contou com o famoso guitarrista e produtor Sascha Paeth, amigo de longa data de Tobias, o guitarrista Oliver Hartmann, o tecladista Miro Rodenberg e o baterista Feliz Bohnke, todos cumprindo seu papel de maneira fantástica. Aliás, a dobradinha final com “Sign of the Cross” e “The Seven Angels” com todos no palco foi acertadíssima, transformando tudo em uma verdadeira festa. Venham mais vezes ao Brasil, como prometido pelo próprio Tobias!

Fotos / Setlist (Avantasia)

Confira como foi o primeiro dia (29/04) do Summer Breeze Brasil 2023

Nossos agradecimentos a todos os responsávels por tornarem o evento possível e, em especial, para a Agência Taga, Free Pass Entretenimento e Roadie Crew pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock. Nos vemos em 2024!


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