Gojira e Mastodon realizam show potente em São Paulo

Por Vic Heloise

Mastodon – Foto: Stephan Solon

O mês de novembro entrará para a história para os headbangers latinos. A química perfeita entre Mastodon e Gojira resultou em um dos “festivais” mais coerentes e espetaculares dos últimos tempos. Apesar do extremo calor em São Paulo, nada impediu o público de organizar diversas vezes mosh-pits e esquentar ainda mais o clima no Espaço Unimed, na Barra Funda, na última terça-feira (14).

Por um lado, Mastodon abriu a noite, e trouxe a união entre o peso de sua música e efeitos psicodélicos das imagens do telão, sincronizadíssimas com a melodia; de outro, Gojira, um dos maiores nomes do metal na atualidade, proporcionou um setlist impecável e uma performance precisa, fervorosa e inconfundível. Começando pontualmente às 20h20 como anunciado, Mastodon abriu o setlist com a canção “Pain With An Anchor”, do lançamento mais recente Hushed And Grim (2021). O baterista Brann Dailor mostrou durante toda noite uma performance surpreendente e impecável ao cantar e tocar bateria ao mesmo tempo. Dividindo os vocais com o baixista Troy Sanders, o público recebeu muito bem a banda e já na primeira música já pudemos presenciar a formação das famosas rodinhas.

A plateia gritava o nome da banda durante toda a noite, preenchendo o pequeno silêncio entre as músicas. Os artistas tiveram pouquíssimas interações durante o setlist, deixando os discursos para o final da apresentação. Com as músicas praticamente emendadas uma na outra, a noite seguiu com “Crystal Skull’, do álbum Blood Mountain (2006) e “Megalodon”, presente no Leviathan (2004). Nesta última, a produção do palco criou uma experiência imersiva com escolhas excelentes de iluminação e das ilustrações psicodélicas no telão. Lasers azuis e verdes cruzavam o Espaço Unimed e encontravam uma baleia inflável que voava sob o público. Os brasileiros pulavam em sincronia enquanto Bill Kelliher e Brent Hinds mostravam suas técnicas gloriosas nas guitarras.

O setlist seguiu contemplando músicas de todos os álbuns. Vinha a seguir “Divinations”, do Crack The Sky (2009) e “Sultan’s Curse”, do Emperor Of Sand (2017) algumas das músicas mais aclamadas da apresentação. Troy pedindo para todos manterem suas mãos no ar intensificaram a emoção do público, que ficou aquecido, figurada e literalmente, durante todo o percurso do show. João Nogueira, tecladista pernambucano que participou das gravações do último álbum e que criou arranjos para as demais músicas nessa turnê, sempre que podia, gritava animado em português e enchia de orgulho os brasileiros. Ele, que inclusive foi o primeiro a receber os fãs que esperavam a banda no hotel, demonstrou simpatia e até contou as aventuras do pós-show, em que alguns membros do Mastodon e do Gojira ficaram até altas horas da madrugada nos bares de São Paulo.

Mastodon – Foto: Stephan Solon

Voltando ao show, a escolha sábia das canções foi justificada por um motivo que a própria banda se arrepende: faziam nove anos que o Mastodon não pisava nas terras brasileiras. A grande espera dos fãs foi recompensada com mais sucessos como “Bladecatcher”, “High Road”, e “Mother Puncher”. Pra fechar com chave de ouro, “Blood And Thunder”, que deu mais um fôlego para o público e promoveu o mosh mais poderoso. As vozes cantavam em uníssono o refrão marcante da canção que possui mais de 67 milhões de reproduções no Spotify. Ao final, pudemos ouvir os agradecimentos de Troy, ver Brent sacudindo a bandeira do Brasil e escutar Brann saudando o público e pontuando uma insatisfação: “Fazem anos que não vinhámos ao Brasil, isso é inaceitável. Precisamos voltar antes porque sabemos que vocês são o melhor público. Muito obrigado por toda a sua paixão”, disse.

O Mastodon definitivamente fez um show colossal e deixou os fãs que aguardavam ansiosamente o retorno da banda de alma lavada. Pelo que pudemos perceber, o público estava bem dividido entre fãs das duas bandas, e quem não conhecia um ou outro teve uma grata surpresa. A simbiose do estilo das bandas foi o ingrediente perfeito para manter o padrão do The Mega-Monsters Tour. Corações aquecidos, a vez era do Gojira.

A banda francesa que cobriu o espaço deixado pelo Megadeth no Rock In Rio 2022 deixou o público mais aflorado e emocionado. Não havia muita esperança que eles retornassem ao Brasil pós festival, mas felizmente a banda atendeu aos pedidos de um show em São Paulo. Não era raro ver homens e mulheres chorando em algum momento do show. Os fãs, unidos pela música, compartilhavam na fila ou na espera na porta do hotel a importância que o Gojira tem em suas vidas. Cada qual com uma canção especial, uma história de superação em que a trilha sonora foram as letras profundas de Joe Duplantier, as linhas de guitarra e de baixo de Christian Adreu e Jean Michel-Labadie e do peso inconfundível da bateria de Mario Duplantier.

Iniciando com “Born For One Thing”, single do último álbum Fortitude, lançado em 2021, Gojira já chegou com pedradas, seguindo com “Backbone”, do álbum From Mars To Sirius (2005). Logo as rodas de mosh começaram, acompanhando o peso das duas músicas e seguiam para o single “Stranded”, do álbum Magma (2016), que tem impressionantes 96 milhões de reproduções no Spotify. As músicas estavam sendo cantadas a todo vapor pelo público, acompanhadas de pulos ferozmente dados pelos brasileiros que precisavam acompanhar o ritmo da bateria destrutiva de Mario Duplantier, além dos riffs pesados e marcantes das seis cordas.

Gojira – Foto: Stephan Solon

A energia já estava muito alta e a próxima canção teria grande participação do público. Em meio às primeiras notas de Flying Whales, os brasileiros já faziam o coro, espumando sentimentos. As baleias infláveis voltavam a voar pelo público e os moshs recomeçaram. Em tão pouco tempo, o calor já estava insuportável e ficava pior a cada onda de roda punk. Isso porque quem estava em volta era pressionado e se deslocava sem querer. Porém, a força de vontade para ficar nos maiores clássicos da banda impedia qualquer fã de sair dali.

Aquele era o momento de um mais combos de músicas absurdamente técnicas, especialmente na bateria. “The Cell” e “The Art Of Dying” foram as próximas a proporcionar mais rodas. E Mario não parava, já que a seguir vinha seu solo de bateria que, conhecidamente, conta com plaquinhas pedindo para o público gritar mais alto. Depois do solo, dava para reparar que a banda toda estava pingando de suor. O vocalista Joe Duplantier comentou, “está quente aqui, não é? está quente aqui!”, uma reclamação já conhecida pelos artistas que performam no Espaço Unimed. Apesar de conter ar-condicionados em sua estrutura, o tamanho do local não refrigera o suficiente para tornar o ambiente agradável para os fãs ou para os artistas. Esse foi o ponto baixo da noite. Inclusive, segundo relatos dos fãs, a equipe da casa de show não deu garrafas de água para o público próximo às grades, prática que geralmente acontece nos concertos. Os seguranças das próprias bandas tiveram a atitude de abrir caixas e distribuir para as pessoas.

Apesar deste problema, o show seguiu o seu curso, agora ao som de “Grind” e “Another World”, do álbum Fortitude (2021). Nesta última, Joe se ateve a falar poucas palavras, reiterando o que é demonstrado no clipe que passava no telão: “não podemos ir para outro planeta, por isso temos que cuidar deste aqui”. Diferentemente do show no Rock In Rio em 2022, Duplantier não falou muito sobre os problemas climáticos e ambientais que estamos enfrentando, pauta muito abordada ao longo da carreira da banda. Mais adiante, “Oroboros”, que voltou depois de 5 meses ao setlist especialmente para a turnê latino-americana. A banda não tocou a estrofe final da canção e já fez uma transição para o single “Silvera”, que animou muito o público. 

Gojira – Foto: Stephan Solon

Logo após, Joe abriu a música “The Chant” com um discurso e pedindo para o público cantar junto o refrão: “Precisamos da ajuda de vocês para fazer isso ser massivo, a letra é muito simples, é só aaah, então não é muito difícil, não tem letra no refrão e você tem que imaginar o próprio significado para isso. O que quer que seja que você tão passando na sua vida que precisa superar ou o que quer que esteja difícil no momento, se você tem pessoas que ama que estão sofrendo, ou você mesmo, eu fiz essa música para que nós todos possamos unir energias, todos nós, juntos, por alguns minutos. Isso é tão legal, porque ficaremos no mesmo poder, na mesma página, na batida do coração, todos juntos. Você são o show.”, disse.

O pedido foi atendido, e a canção ecoava nas paredes, emocionando os músicos pela paixão do seu público. Já encaminhando para o fim do setlist, “L’Enfant Sauvage”, do álbum com o mesmo nome lançado em 2012, “The Heavist Matter Of The Universe” e “Amazonia” trouxeram mais fôlego para os brasileiros baterem a cabeça e cantarem o mais alto que podiam. Para fechar essa noite emocionante, “The Gift Of Guilt” arrancou lágrimas dos fãs que respiravam agradecidos pelo espetáculo que puderam presenciar. Depois das despedidas e da distribuição das palhetas e baquetas, Mario Duplantier subiu em um bote inflável e navegou sob os fãs, enrolado em duas bandeiras do Brasil. A sensação de dever cumprido estava estampada no rosto dos músicos que sorriam agradecidos pela noite, enquanto os fãs demonstraram, aos gritos, a emoção vivida no show.

Coerente, pesado, emocionante e gratificante, esta turnê com certeza ficará marcado na memória e no coração dos quase 8 mil fãs que ocuparam o Espaço Unimed, em São Paulo. 

Foto: Stephan Solon


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