Por Gustavo Franchini

Após um dia incrível recheado de excelentes atrações, o melhor do Bangers Open Air 2026 ainda estava por vir, pois o domingo prometia ser a aventura dos sonhos de qualquer headbanger brasileiro que se preze. O público chegou a um número ainda maior do que no sábado, alcançando recordes no final da noite, enquanto o clima contribuía com céu limpo, apesar de o sol ainda castigar os que não foram preparados para lidar com seus raios sem misericórdia. Os stands estavam ‘bombando’, os food trucks a todo vapor e muita socialização de modo geral. Para os que procuravam um tratamento mais VIP, o espaço Lounge deu conta do recado e foi bastante elogiado por todos.
As Signing Sessions, bem mais organizadas do que a edição anterior, abrigaram os que queriam uma experiência mais próxima de seus ídolos, seja para tirar fotos, aquele bate-papo rápido contando histórias inusitadas, declarando o amor pela banda ou ter um autógrafo para cimentar aquele momento no pilot. A área das mesas e cadeiras próximo aos stands estava cheia do início ao fim, pois os roqueiros de plantão também precisam recarregar as energias! O toque de humor esteve presente nos cosplays de filmes de terror, representando vários filmes da cultura pop e fazendo a alegria da galera. Os bebedouros atenderam à demanda, lixeiras com a reposição necessária e os banheiros estavam relativamente limpos em horários de pico, em outras palavras, é um festival de altíssimo nível para ninguém botar defeito. A cada edição avança mais um passo para se tornar referência mundial e desejo de inúmeros artistas em fazer parte desta celebração da boa música.
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Neste domingo (26/04) tivemos a cobertura das bandas Angra, Smith/Kotzen, Within Temptation, Amaranthe, Crazy Lixx, Krisiun, Malvada, Nevermore, Primal Fear, Roy Khan e Winger.
Sun Stage
Roy Khan
Muito querido pelo público brasileiro, o vocalista Roy Khan (ex-Kamelot e Conception) não só é exemplo de uma voz singular que encanta pela beleza na interpretação e timbre, mas também pelo carisma e carinho recíproco nos palcos, além de um desempenho ao vivo que chega a dar inveja por já ser quase um idoso (56 anos pra ser preciso). Era de se esperar um ótimo show, mas o que a plateia teve a honra de assistir foi muito acima disso; um dos melhores de todo o festival. Chega a ser questionável o por quê de não estar em um dos palcos principais e inclusive em horário mais propício.
Com seus óculos escuro, atual careca e cavanhaque, o norueguês simplesmente mostrou o motivo de ser tão respeitado mundo afora, entregando uma excelente apresentação de sua carreira solo com setlist escolhido a dedo, presenteando os fãs com muitos sucessos do auge de sua ex-banda, apesar da curta duração. Em uma hora, conseguiu fazer o pessoal agitar, se emocionar e gritar a plenos pulmões “Roy, Roy”, ignorando o calor absurdo naquele momento. Tanto a banda de apoio (do grupo Seven Spires) quanto a participação das talentosas cantoras (como Adrienne Cowan) fizeram toda a diferença para que aquilo se tornasse memorável. Aliás, o baixista Peter de Reyna realmente foi um grande destaque com sua pegada e sonoridade do instrumento.
A entrada com a trinca “When the Lights Are Down”, “Soul Society” e “Rule he World” deixaram todos encantados, mas os duetos com Cowan em “Center of the Universe”, “Forever” e “March of Mephisto” realmente foram o que tiveram maior repercussão e resposta do público. A longa “Memento Mori” transcendeu todas as barreiras inimagináveis e o que se via eram apenas sorrisos ou mesmo lágrimas de felicidade. Que belo instrumental e principalmente a linha vocal de cair o queixo. Lá pra metade do show, Roy tirou os óculos escuros para se conectar de maneira mais direta com o público e i resultado foi êxtase total.
(Atualização: Depois do sucesso de sua apresentação no festival, o cantor já anunciou o retorno ao Brasil ainda em outubro deste ano com a turnê The Black Halo and Beyond nas cidades de São Paulo e Porto Alegre)
Fotos / Setlist (Roy Khan)
Crazy Lixx
Para os que gostam de reviver a nostalgia de uma época florida e recheada de músicas enérgicas como o hard rock com pitada de ‘farofa’ dos anos 80, o Crazy Lixx (e Winger no outro palco) demonstrou a receita perfeita para atender a este público. O look de cabelos volumosos, roupas com cores fortes e uma apresentação empolgante não deixam o desânimo tomar conta por um minuto sequer. Riffs eletrizantes nas guitarras, um baixo pulsante, bateria precisa e vocal de primeira fizeram do show uma grata surpresa, pois muitos nem sequer conheciam a banda e claramente ficaram de olhos arregalados com a qualidade do quinteto.
Vale ressaltar que, sim, eles utilizam uma fórmula já consagrada pelas grandes bandas do estilo em harmonias e melodias, tendo influência bem óbvia de Mötley Crüe, Def Leppard e Alice Cooper, mas o fazem de uma maneira tão épica que realmente é difícil desviar a atenção durante as 11 músicas destiladas com cuidado nos detalhes. Solos sensacionais, refrãos cativantes e canções de fácil assimilação. É curioso que ainda não tenham o devido reconhecimento aqui no Brasil, pois mereciam voltar outras vezes para mostrar mais do seu trabalho. O vocalista manifestou que o público aqui é diferenciado. Destaque para “Never Die (Forever Wild)”, “Midnight Rebels” e “Blame It on Love”.
Fotos / Setlist (Crazy Lixx)
Krisiun
Anunciada no início do ano como substituta das bandas Cobra Spell e Eluveitie (que cancelaram sua vinda), o trio brutal death metal do Krisiun, já consagrado internacionalmente, foi um show à parte em ambos os sentidos. Os irmãos Kolesne juntos a Alex Camargo, ao longo de mais de 30 anos de carreira, colecionaram sucessos e reconhecimento por músicas que são uma paulada nos ouvidos. O som do palco que estava muito bom contribuiu para uma apresentação de peso, mantendo não só uma rodinha animada por parte do público que encheu o espaço, mas também o interesse em prolongados solos de guitarra e bateria.
Sem sombra de dúvidas um dos poucos shows que merece ter um solo de bateria é o do Krisiun, visto que Max é considerado um dos mais rápidos do instrumento, descendo a mão no kit como se fosse um teste para entrar no Guiness. O setlist englobou bastante coisa da carreira e canções como “Descending Abomination” e “Blood of Lions” agitaram bastante a todos. Ainda assim, ficou aquela sensação de que a banda se encaixaria melhor no primeiro dia do festival (que foi mais dedicado ao gênero mais extremo), só que por toda a sua história conseguiu impactar do mesmo jeito.
Fotos (Krisiun)
Roy Khan celebrou carreira no Kamelot com show impecável – Foto: Gui Urban
Waves Stage
Malvada
Uma das poucas atrações que tocaram na edição passada e voltaram esse ano, o quarteto feminino Malvada, mesmo com pouco tempo de existência e apenas um álbum lançado (A Noite Vai Ferver, de 2021), já atraem um bom público que lotou o Waves para conferir o show da vocalista Indira Castillo, a guitarrista Bruna Tsuruda, a baixista Rafaela Reoli e a baterista Juliana Salgado. O mais legal é que as músicas são cantadas em português e inglês com letras interessantes no gênero stoner/hard rock. Para a proposta do palco, mais intimista e com boa acústica, a banda se encaixou muito bem.
O single “Veneno” empolgou os presentes e demnstrou uma boa performance de todas, em especial Tsuruda e Salgado. Alguns problemas técnicos, cmo o volume do microfone que estava muito alto, atrapalhando um pouco a guitarra e baixa em algumas canções, além de deixar o som estridente em algumas notas mais agudas, não ofuscaram o brilho das donzelas, muito pelo contrário, só mostraram que ali não tinha playback, nem sample, nem autotune, era tudo feito com muita garra/dedicação e vontade real de alcançar sonhos.
Fotos (Malvada)
Hot/Ice Stage
Primal Fear
Outra banda que certamente merecia estar em um horário de maior relevância, o Primal Fear doutrina com seu power/speed metal tradicional que conta com uma das maiores vozes da cena, Ralf Scheepers. O fundador, principal compositor e baixista Mat Sinner infelizmente não pôde comparecer ao evento por motivos de saúde, sendo substituído pelo amigo de longa data da banda, o competente Dirk Schlächter (Gamma Ray). Parece que os olhares estavam para a nova guitarrista, Thalìa Bellazecca, que despertou reações da plateia durante todo o show. Durante a parte instrumental de uma das canções, ela tropeçou na passarela e levantou imediatamente com elegância, diante de aplausos.
Tendo como mote o álbum lançado no ano passado, Domination, representado pelas músicas “Destroyer”, “I Am the Primal Fear” e “The Hunter”, todas com riffs maravilhosos e praticamente obrigando todo mundo a bangear com vontade. O simpático Scheepers tem uma aura digna de uma lenda, isso sem contar com a impressionante capacidade de cantar com técnica impecável aos 61 anos de idade, um feito que não é para qualquer um, ainda mais se considerarmos a dificuldade das linhas vocais da banda. É drive, falsete, voz de corpo, belting, vibratto, tudo. Pacote completo.
Um dos ápices da curta apresentação foi a trinca final “The End Is Near”, “Chainbreaker” e o clássico “Metal Is Forever”, deixando aquele gostinho de quero mais, pois uma banda desse calibre merece um show com o dobro da duração. Quem sabe eles voltam ano que vem, quando o Primal Fear completa 30 anos de história?
Fotos / Setlist (Primal Fear)
Nevermore
Um longo hiato de 15 anos separava os fãs do Nevermore de uma apresentação ao vivo, amplificado pelo falecimento repentino do vocalista Warrel Dane em 2017. Prosseguir com a banda depois de tudo parecia impossível, mas o milagre se solidificou na vontade do fundador e guitarrista Jeff Loomis e o batera Van Williams, que já haviam anunciado em 2024 um possível retorno neste ano, e também na entrada do turco Berzan Önen pra assumir os vocais. Isso porque substituir alguém como Dane, que possuía uma voz peculiar e interpretação melancólica necessárias pras composições, realmente seria uma tarefa hercúlea.
Önen não só se mostrou um ótimo cantor, técnico e com feeling, respeitando bastante as linhas criadas originalmente por Dane, como também um excelente frontman, interagindo com a galera de maneira profissional. Resultado: o público foi à loucura, diversos moshes no grande espaço (lotado) do Ice Stage, muito peso, guitarra a todo vapor, vários clássicos executados, sorrisos nos rostos e rolando até aquela brincadeira de dividir a plateia em duas e depois se colidirem (claro que o pessoal foi super tranquilo e não houve nenhum problema). Pode-se dizer que é um vocalista ‘true metal’, raiz mesmo, o que está em falta atualmente no heavy metal da nova geração.
Apesar do curto setlist, deu tempo de entregar várias do Dead Heart in a Dead World (2000), um marco para o gênero, como “Narcosynthesis”, “The River Dragon Has Come” e “Inside Four Walls”, além de outros álbums representados por “Beyond Within” e “Born”, dentre mais alguns em 55 minutos. A nova empreitada da banda tem tudo para ser um sucesso e esperamos que voltem ao Brasil na próxima turnê para divulgar um possível lançamento de inéditas com a formação atual.
Fotos / Setlist (Nevermore)
Within Temptation volta ao palco do festival para encantar o público novamente – Foto: Gui Urban
Amaranthe
O power metal parece estar em alta com bandas que buscam renovar o estilo ao apresentarem novos formatos para suas músicas, como é o caso do Amaranthe, sexteto que flerta com symphonic, música eletrônica, pop e possui três vocalistas, cada um com seu jeito específico de cantar (limpo, gutural e feminino). Canções de relativa curta duração e refrãos meticulosamente criados para o público cantar junto é a receita perfeita para uma sintonia bem interessante ao vivo. A plataforma que estendia o palco para o setor VIP foi bastante utilizada justamente com esse intuito, aumentando interações e despejando energia em 15 músicas tocadas uma atrás da outra.
A reciprocidade era bonita de se ver, e canções como “Fearless”, “Digital World”, “Maximize”, Strong”, “The Nexus” e “Archangel” agitaram os que ousaram enfrentar o sol que estava no auge da fritação. Fã de metal realmente não tem frescura e prefere voltar pra casa vermelho, ardido e com possível queimaduras de 1° grau do que não participar da celebração (risos).
Fotos / Setlist (Amaranthe)
Winger
Parte dos artistas que possuem uma carreira longeva que contrasta com outras que se apresentaram no festival, o Winger é uma instituição do hard rock com seus 40 anos de existência, bastante respeitado ao redor do mundo, principalmente pelo fato de o vocalista, baixista, fundador, frontman que deu nome à banda, Kip Winger, ser uma figura conhecida da indústria, chegando a ter sido membro do Alice Cooper por anos e atualmente focado em composições orquestradas de música clássica (sim, isso mesmo). Trazendo a turnê de despedida dos palcos, o setlist foi recheado de canções bem nostálgicas.
Agora, o mais incrível foi ver a reunião da formação original com Reb Beach, Paul Taylor, Rod Morgenstein e entrada do contratado Howie Simon no palco, pura homenagem ao hard rock oitentista que eles ajudaram a popularizar. Tal fato rendeu momentos mágicos, deixando um gostinho de quero mais, pois uma hora de show não foi suficiente para um público sedento pela banda mais injustiçada da MTV. Isso porque naquela época, o desenho Beavis & Butthead, o surgimento do grunge e até mesmo o Metallica afetaram a carreira de grupo, uma história curiosa que merece um artigo futuro a respeito. Mas isso não fez a banda desistir e, mantendo lançamentos de qualidade, shows incríveis e performance muito técnica, o Winger sempre foi reconhecido como um dos maiores nomes do estilo.
Afinal, quem não se emociona ao ouvir “Miles Away”? Inclusive deixou bem claro que a banda merecia ter tocado um setlist maior à noite, pois combinava mais com sua sonoridade. A pegada, energia e precisão de integrantes que em sua grande maioria já passaram dos 60 anos de idade, chega a ser impressionante. E o público respondeu com bastante carinho, cantando e dançando as músicas que fizeram parte de suas vidas. Mesmo os problemas técnicos no som, que deixaram o baixo mais baixo (ironicamente), não foram suficientes pra estragar a beleza ímpar da apresentação.
Muitos comentaram que foi um dos melhores shows de toda a história do festival, e realmente é difícil negar, já que foi a mistura perfeita entre gerações no alicerce da música de verdade. Ver pais abraçados com os filhos cantando juntos “Headed for a Heartbreak” e “Madalaine” realmente não tem preço. Até o longo solo de Beach prendeu a atenção de todos, assim como outras partes instrumentais que foram alongadas para que cada minuto fosse apreciado como deveria sempre ser. Espero que reconsiderem a despedida e voltem a brindar os fãs com mais shows no futuro!
Fotos / Setlist (Winger)
Smith/Kotzen
O projeto que reúne dois grandes guitarristas do cenário, Adrian Smith (Iron Maiden) e Richie Kotzen (ex-Poison e The Winery Dogs), além de dois brasileiros (nos shows), a baixista Julia Lage (Vixen e casada com Kotzen) e o baterista Bruno Valverde (Angra), realmente não tinha como dar errado. E assim surgiu Smith/Kotzen com seu hard e blues rock enérgico, técnico, cheio de referências do estilo de ambos, muita entrega autêntica e, acima de tudo, bom gosto. É engraçado que ambos chegaram um pouco tímidos, se soltando mais ao longo das músicas, surpreendendo pelos vocais de Adrian (Kotzen já é conhecido pelo seu ‘vozeirão’) e o seu conhecido feeling nas interpretações guitarrísticas.
Os vocais e solos divididos milimetricamente no álbum de estúdio foram transferidos nas coreografias ao vivo, tudo bem planejado, ainda que em palco simples em produção, focando no que importa: a música. Um pequeno problema técnico que deixou o baixo mais alto do que as guitarras, deixando as mesmas sem clareza de notas nas bases, foi rapidamente resolvido e não afetou em nada a magistral performance da dupla. O peso da bateria de Bruno e a empolgação de Julia foram essenciais para elevar a sonoridade de um setlist que foi praticamente composto pelas canções do projeto, como “Black Light”, “Taking My Chances”, “Got a Hold on Me”, “Running”.
Isso porque o encerramento se deu com “Wasted Years” (Iron Maiden) para o deleite dos presentes, ainda que muitos estivessem gritando “Reach Out, Reach Out”, b-side da donzela de ferro que é originalmente cantada por Adrian. E que momento quando foram juntos até a passarela e fizeram um dueto de solos! Vida longa ao projeto, que gravem mais discos e continuem fazendo turnês pelo globo.
Fotos / Setlist (Smith/Kotzen)
Within Temptation
Headliner do Ice Stage e pela segunda vez no festival, o metal sinfônico do Within Temptation volta com força total para uma apresentação que misturou a fase atual com clássicos de sua carreira, que está prestes a completar 30 anos. A vocalista e frontwoman Sharon den Adel se mostrou familiarizada com o público brasileiro e interagiu bastante com os fãs em músicas cantadas por todos, como “Stand My Ground”, “Faster”, “Paradise (What About Us?)” e “Ice Queen”, dentre outras. A introdução já veio com clima de maneira impactante com o peso de “We Go to War”, além de surpresas que não eram tocadas há um bom tempo, na forma de “The Howling”, “The Heart of Everything” e “Forsaken”.
A entrada do tecladista Vikram Shankar, no lugar de Martijn Spierenburg, foi recebida calorosamente por um público que não parava de pular, gritar e declarar seu amor pela banda. O desempenho de Sharon parece que melhora a cada ano, além de seus famosos modelitos muito bem escolhidos para uma diva do metal. No entanto, em parte do show rolou um problema no som da guitarra, a voz também ficou abafada pela bateria e alguns ruídos nas notas mais graves do baixo, sendo resolvido aos poucos.
A boa produção de palco, iluminação em plataformas e um telão criativo de fundo mantiveram a atenção no espetáculo. O final com o hit máximo “Mother Earth” consolidou a banda como uma das queridíssimas dos brasileiros com uma base de fãs fiéis e que já aguardam ansiosos por uma nova passagem pelo país.
Fotos / Setlist (Within Temptation)

Angra presenteia fãs com show histórico e marca estreia de novo vocalista – Foto: Marcos Hermes
Angra
E chegou o momento sublime que os fãs do heavy metal de todo o Brasil esperavam acontecer há pelo menos 15 anos; a reunião do Angra, depois de tantas tretas com ex-membros em 35 anos de trajetória, de tantas incertezas sobre o futuro da banda. Não foi apenas um show com participações especiais, músicas pontuais de cada época e um abraço coletivo. Foi uma obra pensada nos detalhes, dividida em 3 atos com mais de 2 horas de duração. Foi a maior produção de palco da história da banda. Foi o maior público de todas as edições do festival. Foi a consagração da importância incontestável do Angra para a música brasileira.
Colocar como atração principal uma banda nacional parecia um desafio, mas no final das contas o resultado foi mais do que merecido, mostrando a força que o nome tem no país. O misto de emoções em diversos momentos, no olhar, no sorriso, nas lágrimas, no coração pulsante e nos gritos de alegria, apenas demonstraram que o fã de Angra tem uma relação mais do que especial com a banda, o que às vezes já gerou conflitos na mídia, mas acima de tudo é pura paixão pelo que ela representa na vida de todos.
A linda introdução nos PAs precedeu a entrada do hino “Nothing to Say”, marcando a estreia de Alírio Netto nos vocais e também nos palcos da banda com a nova formação, seguido de outro clássico, “Angels Cry”. Sua voz de tenor parece se encaixar muito bem na fase Andre Matos, alcançando os tons com certa facilidade e uma boa entrega teatral que é proveniente de sua experiência com peças de teatro estilo Broadway. Então, Fabio Lione, que saiu da banda recentemente, canta com maestria as duas partes de “Tide of Changes”, mostrando sua poderosa voz que encantou a todos durante os 14 anos em que esteve à frente da banda.
A primeira grande surpresa se deu com “Lisbon”, do subestimado Fireworks (1998), que teve um pequeno erro na entrada de bateria, mas que nada tirou o brilho de uma das melhores canções da banda. No intervalo, Fabio fala que vai guardar no coração todos esses anos no Angra, muitas memórias, muito carinho tanto pelos amigos que fez como pelos fãs que conquistou. Daí entra “Vida Seca”, tendo um telão de fundo bem legal e uma execução perfeita. A montagem de duas baterias em plataformas altas, piano de cauda, gelo seco, pirotecnia, fogos de artíficio, além de uma ótima qualidade na mesa de som, se destacando um som sensacional do baixo de Felipe Andreoli, eram apenas apetrechos para mostrar o poder das canções e transformar tudo em algo ainda mais grandioso.
Eis que Alírio ressurge no piano e diz que a próxima seria uma homenagem ao maestro, surpreendendo a todos com simplesmente “Wuthering Heights”, versão cover de Kate Bush que ficou famosa na voz do nosso saudoso Andre. Performance impecável? Honestamente, não, até pelo nível extremo de dificuldade da mesma. Ainda dá para polir bastante, mas agora possivelmente se tornou presença certa nos futuros setlists da banda. Ainda bem! Este ano marca também a comemoração de 30 anos do Holy Land (1996), considerado por muitos o melhor da banda e o que mais representa a identidade própria do Angra com seu som único. Por isso, veio “Carolina IV”, outra grata surpresa que animou a galera em seus 10 minutos de duração.
Agora, ninguém estava preparado para o que estava por vir. No papel, parecia bem legal. Na prática, se mostrou a genuína transcendência de qualquer headbanger que tenha o mínimo de sensibilidade. Um intervalo de alguns minutos deu espaço para “In Excelsis” no som da casa e o festival inteiro berrou em uníssono ao ver no palco a formação da época do Rebirth (2001) em “Nova Era”, tendo o guitarrista Kiko Loureiro, o baterista Aquiles Priester e o carismático vocalista Edu Falaschi (que teve o público nas mãos do início ao fim) juntos nas sombras em cima da plataforma, até que entra o riff, eles ficam iluminados na frente da galera e é até difícil de descrever a sensação de ter a honra de estar ali. Diferente do show que rolou alguns dias depois, que teve um set com o álbum na íntegra, neste foram apenas algumas e também contou com canções do Temple of Shadows (2004) e, por incrível que pareça, Aurora Consurgens (2006).
Portanto, “Waiting Silence” é tocada para o deleite de muitos, enquanto que “Millennium Sun” mostra como fica boa ao vivo e a balada “Heroes of Sand” encanta a todos, cantada em uníssono pelas 8 mil pessoas. Aliás, o esforço de Edu em cantar músicas tão difíceis depois de tudo o que passou, é realmente louvável, digno de aplausos e merecedor de todo o respeito. As canções estavam em tom abaixo da gravação original? Sim, quem é mais atento a tais detalhes ou é músico percebeu isso com muita clareza. Mas em nada tira a fabulosa performance de um cantor que tem um dos mais belos timbres do heavy metal. E isso não se perde com o tempo.
“Ego Painted Grey” e seu tapping no baixo pegou todos desprevenidos. Uau! Na lista de 5 momentos mais memoráveis do show, definitivamente “Bleeding Heart” e sua chuva de luzes de celular foi um deles. A volta com o speed metal em “Spread Your Fire” e a cadência de “Acid Rain” tiram o cansaço de qualquer um. O encerramento do ato com o violão de “Rebirth” é a certeza de que milhares de vozes foram ouvidas até pelos prédios vizinhos ao festival.
O Ato 3 (final) chegou no topo da lista com um momento super emocionante, que faria até mesmo um ogro chorar desenfreadamente. Iluminando no palco apenas o piano de cauda, ao som de “Silence and Distance”, a voz de Andre Matos é reproduzida ao fundo durante alguns segundos, depois o telão mostra um vídeo antigo de uma apresentação dele em Tóquio, no Japão, até que entra a banda toda para a parte com os outros instrumentos, ao mesmo tempo que várias dezenas de imagens da vida musical e legado do Andre são mostradas ao longo da canção. A quantidade de pessoas que choraram nesta hora dava pra encher de lágrimas uma piscina inteira. Homenagem fantástica!
Essa foi a primeira de duas músicas que Alírio Netto e Edu Falaschi dividiram vocais, a segunda sendo “Late Redemption”, que por sinal Edu tirou de letra, disparado o melhor desempenho dele no show (outra que ficou muito boa na voz atual dele foi “Heroes of Sand”). E aí todos se reúnem no palco pela última vez naquela noite para tocar e cantar a música que alçou o Angra ao estrelato, a obra-prima “Carry On”. Imagens de todas as formações e história da banda no telão. Só que ela não foi tocada do modo tradicional. Além de três vocalistas e três guitarristas, a exemplo do Helloween, tanto Priester quanto Valverde tocaram bateria, ou seja, a sincronia tinha que ser na maior precisão possível. E foi. Sem ensaio, sem click, os dois bateristas mostraram mais uma vez o por quê de serem um dos maiores nomes do instrumento ao redor do planeta. Pra completar, foi lindíssimo de ver Lione, Netto e Falaschi na frente da passarela colados ao público cantando o refrão com tanta potência que Andre Matos certamente ouviu lá de cima. Viva o Angra e o metal nacional!
O heavy metal é um dos poucos estilos em que a pessoa que cresce gostando desde pequeno, envelhece sabendo apreciar da mesma forma, mesmo que passe a gostar também de pop, jazz, samba, o que quer que seja (mas sempre boa música). O Bangers Open Air mostra mais uma vez que os fãs são dedicados, emocionados, gratos e respeitosos, sabendo valorizar um evento que entregou tudo e mais um pouco. Parabéns à equipe e que cultivem os frutos de um trabalho fenomenal!
Fotos / Setlist (Angra)
Confira como foi o sábado (25/04) do Bangers Open Air 2026
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Agência Taga e Damaris Hoffman pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock. Nos vemos em 2027!



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