Edu Falaschi iniciou nova turnê de comemoração dos 35 anos de carreira com show impactante no Rio

Texto e Edição: Gustavo Franchini

Foto: Ian Dias

Após uma bem-sucedida turnê com o Masters of Voices, Edu Falaschi voltou aos palcos neste mês por um motivo mais do que especial: o lançamento do álbum Mi’raj (2026) e a celebração de seus 35 anos de carreira. Recheado de surpresas, o setlist mostrou-se verdadeiramente antológico. Não haveria palco melhor para a estreia do que o Rio de Janeiro (07 de agosto), berço de grande parte da formação musical do cantor e cenário de diversas memórias afetivas. O grande diferencial dessa noite icônica foi o privilégio concedido aos fãs cariocas, que testemunharam a execução inédita de várias canções ao vivo e o resgate de uma relíquia esquecida há mais de três décadas.

Os trabalhos no Circo Voador começaram pontualmente após a apresentação da banda de abertura, Gargant. A emblemática lona da Lapa só não atingiu sua capacidade máxima porque a Defesa Civil havia emitido alertas severos de ventania, com rajadas que prometiam ultrapassar os 100 km/h (Graças a Deus nada aconteceu). O potencial clima adverso intimidou parte do público, mas não impediu que uma plateia calorosa e expressiva comparecesse. Ostentando uma produção de palco mais modesta se comparada à opulência anunciada para São Paulo (que ainda será repleta de convidados), o show no Rio ganhou uma atmosfera intimista e magnética. Houve intensa sinergia entre o palco e a pista, com destaque para o guitarrista Diogo Mafra, cuja simpatia contagiante elevou a energia do ambiente.

Confira vídeos do evento na seção ‘Destaques’ do Instagram

A aventura musical começou com “Watchers of the Light”, a primeira amostra de Mi’raj, que imediatamente uniu as vozes do público no refrão. A faixa evidenciou o acerto do power metal em se moldar à atual fase da voz de Edu, agora mais grave e contida. Na sequência, ecoou “Ego Painted Grey”, extraída do controverso Aurora Consurgens (2006), de sua época no Angra. A composição, por não exigir agudos extremos, ajustou-se perfeitamente ao momento atual do vocalista, provando que o disco guarda grandes composições. Pouco depois, a balada “Heroes of Sand”, presença cativa em suas turnês recentes, confirmou-se como um dos momentos em que o timbre de Edu brilha com mais naturalidade e beleza.

Foi então que o espetáculo tomou um rumo audacioso. Ao resgatar “Eyes in Flames”, clássico de sua antiga banda Symbols, Edu evocou uma das linhas vocais mais exigentes de sua trajetória. Sem o apoio de seu irmão Tito para dividir os agudos originais de estúdio, o desafio mostrou-se hercúleo. Mesmo transpondo a música para tons mais graves — um recurso legítimo e natural para um cantor de 54 anos que lidou com os efeitos do refluxo —, Edu enfrentou dificuldades para sustentar a imponência da versão original, resultando em uma performance um pouco irregular. Talvez a inclusão de um vocal de apoio tivesse poupado suas cordas vocais para os atos seguintes.

Contudo, o equilíbrio restabeleceu-se em “Echoes of Vows” e “Running Alone”, faixas que se acomodaram perfeitamente ao seu alcance melódico. O momento de maior destaque da primeira metade foi “Eyes of Time”, de sua primeira banda, o Mithrium. Com uma veia pulsante que remete ao punk rock, a canção, que não era executada ao vivo desde 1994, foi interpretada com maestria por Edu, arrebatando até mesmo quem desconhecia essa pérola oculta.

Sendo o mestre incontestável das baladas, o cantor entregou uma versão sublime de “Lease of Life”, um dos pontos altos do injustiçado Aqua (2010). Logo após, as guitarras fritaram em “The Ancestry” (do álbum Vera Cruz), abrindo rodinhas furiosas na pista. Edu surpreendeu pela fidelidade à gravação original, provando a excelente recuperação de parte de sua potência vocal de outrora.

Entre as estreantes, o grande triunfo da noite atendeu pelo nome de “Unchained”. Mesmo após breves contratempos técnicos na guitarra de Victor Franco, a música causou um impacto avassalador, estampando um sorriso genuíno no rosto de Edu diante da recepção calorosa do público. Com as raras “The Voice Commanding You” e “A Monster in Her Eyes”, o show atingia apenas sua metade, totalizando uma jornada homérica de duas horas e meia e mais de vinte canções.

Foto: Ian Dias

As surpresas continuaram com “Leaving the Light”, resgatada do projeto Venus, dos anos 90. Na sequência, o peso do Angra retornou com a vigorosa “Arising Thunder”, mas foi o medley “Land Ahoy / Eldorado” que se transformou em um verdadeiro redemoinho de poder. A introdução de “Land Ahoy”, dedilhada no violão e acompanhada pelo baixo fretless, preparou o terreno para um refrão épico, emendado perfeitamente nos riffs viscerais de “Eldorado”. Esse momento selou o ápice de sua trilogia solo. Edu demonstra uma maturidade massiva como compositor, oxigenando o power metal sem se render a clichês ou mimetismos estrangeiros, destilando originalidade em suas texturas e cores musicais.

Um dos momentos mais lúdicos e aguardados veio com “Bleeding Heart”. A balada definitiva ganhou contornos de forró quando Edu entoou trechos da célebre adaptação em português do Calcinha Preta, arrancando gargalhadas e fazendo a plateia cantar em uníssono mesmo após o término da música. O êxtase continuou com “Birds of Prey” (Almah), que transformou a pista em um cenário caótico de celebração, com fãs pulando e cervejas voando pelo ar. A belíssima e sutil “Intuição” funcionou como um oásis de calmaria para o cantor e o público recuperarem o fôlego.

O Circo Voador então testemunhou a entrada da única convidada da noite: a soprano italiana Veronica Bordacchini, do Fleshgod Apocalypse. Dividindo os vocais em “Spread Your Fire” e “Mi’raj”, ela ainda hipnotizou o ambiente ao cantar uma de sua banda, “Ode to Art (de’Sepolcri)”, praticamente a capella sobre um sample de fundo, sendo ovacionada por sua técnica impecável e alcance formidável.

É justo pontuar que Edu Falaschi sempre se cercou de músicos extraordinários, e sua atual banda de apoio é uma força da natureza em competência. Além dos virtuosos guitarristas Diogo Mafra e Victor Franco, o peso do baixo de Raphael Dafras, a precisão e pegada de Jean Gardinalli na bateria e a sensibilidade do lendário tecladista Fábio Laguna formam um conjunto coeso, entrosado e cirúrgico, que certamente colherá elogios unânimes ao longo da turnê.

Foto: Ian Dias

Para o encerramento, era impensável celebrar essa trajetória sem evocar o hino que moldou a infância e a juventude de tantos brasileiros: a maravilhosa “Pegasus Fantasy”, tema de abertura do anime Os Cavaleiros do Zodíaco. Cantada a plenos pulmões, definitivamente levou o público ao delírio coletivo. Coroando a noite mágica, a dobradinha “Rebirth” e “Nova Era” selou o espetáculo, aquecendo os corações cariocas com a promessa de que uma nova era, de fato, começou.

A conclusão que emerge desta noite é a de que Edu Falaschi pavimentou uma trajetória sólida, reverenciada e dotada de uma força avassaladora nos palcos. Ainda que as marcas do tempo e os desafios vocais tenham afetado seu alcance e a sustentação das notas mais altas, seu carisma inegável, a profunda conexão com seu público e a entrega genuína nos shows são o que verdadeiramente ressoa no coração dos fãs. Que ele continue a nos brindar com sua arte, pois permanece como uma das mentes mais brilhantes e prolíficas do heavy metal nacional. Esta turnê não apenas começou com o pé direito, mas desenha um rastro de sucesso que certamente abraçará as próximas cidades.

Para quem deseja testemunhar essa celebração histórica, após a estreia marcante no Rio de Janeiro e a passagem por Belo Horizonte (08 de agosto), os próximos atos da turnê estão confirmados em: São Paulo (15 de agosto – Tokio Marine Hall), Curitiba (16 de agosto – Stage Garden), Chapecó (05 de novembro – Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes), Florianópolis (07 de novembro – John Bull), Porto Alegre (08 de novembro – Opinião) e Recife (28 de novembro – Armazém 14). Garanta já o seu ingresso e faça parte deste espetáculo memorável!

Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Tomarock Produções pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.


Veja a galeria de fotos do show (Edu Falaschi/ RJ):


*Foto do setlist oficial diretamente do palco do show


Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*