Angra estreia nova turnê que consagra Alírio Netto como novo vocalista em show lotado no Rio

Texto e Edição: Gustavo Franchini

Com uma trajetória que ultrapassa a marca de três décadas e dez álbuns de estúdio, o Angra permanece como um dos pilares mais consistentes do heavy metal global. Referência técnica e conceitual, o grupo paulistano consolidou sua identidade ao fundir o peso do gênero a elementos rítmicos da música brasileira; um verdadeiro orgulho para a nação brasileira. Esse legado traz consigo diversas fases que demonstram uma gradual transição do power metal melódico para o prog metal moderno, mantendo sempre a sua essência. Essa trajetória também se destacou pela mudança de vocalistas, cada um com seu jeito único, o que gera discussões acaloradas no conhecido “Angraverso” — uma brincadeira relacionada às dinâmicas virtuais entre fãs e integrantes que, no final das contas, apenas mostra o quanto o público é apaixonado pela banda.

Após o anúncio do hiato e a subsequente saída de Fabio Lione, o cantor que teve a estadia mais duradoura na história do grupo, o futuro parecia incerto. Eis que surge Alírio Netto, um nome conhecido no cenário por suas contribuições em musicais de teatro como Jesus Christ Superstar e à frente de bandas como Queen Extravaganza, Shaman, Khallice e Age of Artemis. Amigo da banda há muitos anos, Alírio sempre foi um nome querido por todos (e cogitado para substituir o saudoso Andre Matos), mas por algum motivo a sua hora nunca chegava. Só que ele nunca desistiu de ter esperança. Nem por um segundo sequer. A paixão pela banda sempre falou mais alto. Portanto, manteve-se dedicado, firme e preparado para o momento em que as engrenagens da banda voltassem a girar.

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A transição ganhou contornos históricos nos palcos. Embora Alírio tenha estreado oficialmente como o novo vocalista do Angra durante o set especial de reunião no festival Bangers Open Air, em abril de 2026, foi no Rio de Janeiro, dia 18 de setembro (sexta-feira), que o cantor conduziu sua terceira apresentação integral à frente do grupo na nova turnê, após os shows em Campinas (SP) e Vitória (ES), como parte da celebração dos 30 anos do clássico Holy Land (1996). Revisitar a complexidade técnica deste álbum ao vivo impõe exigências severas a qualquer intérprete, dada a densidade lírica e os arranjos originalmente desenhados por Andre Matos. No palco carioca, Alírio Netto entregou um desempenho seguro, combinando precisão vocal a uma presença cênica vigorosa. O resultado prático validou a nova escolha da banda perante uma plateia exigente, demonstrando capacidade para sustentar o repertório histórico com personalidade própria, sem desconsiderar o legado construído por seus predecessores.

Sob uma perspectiva estritamente sincera, a apresentação não buscou a perfeição, mas consolidou-se como um debute sólido, cujas arestas naturais servem como fundação para o potencial dessa nova formação. Sendo um tenor de extensão vocal admirável, Alírio Netto demonstra segurança nas frequências tonais mais altas. Essa característica permite que composições mais difíceis de reprozudir na era Andre Matos sejam revisitadas com fidelidade, abrindo espaço no repertório para clássicos há muito não executados ao vivo. A inclusão do cover de “Wuthering Heights” (Kate Bush) exemplifica essa questão, embora com ressalvas interpretativas pontuais que merecem análise detalhada mais à frente na resenha.

A proposta estrutural do setlist foi dividida de maneira estratégica: um primeiro ato dedicado à execução integral do clássico Holy Land, seguido por uma seleção retrospectiva da discografia da banda. Trata-se de uma dinâmica eficiente para introduzir o novo frontman. Após a abertura conceitual, a queda das cortinas revelou uma produção visual de alto nível (com exceção da iluminação que, sinceramente, merece receber uma atualização artística). A introdução de “Nothing to Say” conduzida pelo baterista Bruno Valverde, desta vez enriquecida pelas texturas percussivas de Guga Machado, reafirmou o peso de um dos riffs mais emblemáticos da banda. Alírio entregou as linhas vocais com aparente fluidez, surpreendendo no refrão final ao atingir modulações técnicas que não se viam há 28 anos.

A execução da lindíssima “Silence and Distance” — composição intimamente ligada à identidade artística de Andre Matos — carregava o desafio de equilibrar reverência e identidade própria. O resultado prático foi muito bem-sucedido, estendendo-se à recepção positiva de “Carolina IV” e à faixa-título “Holy Land”, momento em que o guitarrista Rafael Bittencourt assumiu os vocais principais com competência, apoiado por uma introdução de berimbau executada por Guga Machado. Contudo, o ponto alto do primeiro ato residiu na emblemática “The Shaman”. Raramente executada na história do grupo, a faixa ganhou uma roupagem ao vivo irretocável em seus arranjos e dinâmicas.

A engrenagem do Angra resguarda sua força na solidez de seus instrumentistas. Além de Bittencourt (único membro remanescente da formação original), a linha de guitarras é defendida pela precisão sensacional de Marcelo Barbosa, enquanto a cozinha rítmica encontra em Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) uma das conexões mais entrosadas e elogiadas do metal. Trata-se de um conjunto de músicos que operam como referência em técnica, entrega e domínio instrumental.

A versatilidade de Alírio Netto nos teclados resgata uma dinâmica há muito desejada pelos entusiastas da banda, remetendo diretamente à época em que Andre Matos acumulava as funções de pianista e cantor. O desempenho em “Make Believe” ilustra essa competência. Sendo uma das composições mais exigentes do catálogo do Angra, a faixa funcionou como um teste rigoroso de aptidão vocal, superado com êxito pelo cantor. A sustentação das notas agudas na seção final da música foi recebida com entusiasmo pela plateia, que manteve uma sinergia notável ao longo das quase duas horas de espetáculo, alternando coros e manifestações de apoio à nova formação.

O dinamismo do show foi retomado com o andamento acelerado de “Z.I.T.O.”, que estimulou os tradicionais mosh pits na pista, seguida pela atmosfera intimista de “Deep Blue”, conduzida de forma quase acapela sob uma iluminação cenográfica pontuada pelos celulares do público. Contudo, o setlist dedicado a Holy Land evidenciou pequenos descompassos de tempo e imprecisões melódicas pontuais, sugerindo que faixas ausentes dos palcos há décadas ainda demandam maior rodagem e ensaio coletivo. O primeiro ato encerrou-se de maneira coesa com “Lullaby for Lucifer”, interpretada integralmente e com segurança pelo guitarrista Rafael Bittencourt.

No plano logístico, contudo, a organização do evento apresentou falhas críticas. A superlotação evidente do setor Pista Premium comprometeu a experiência do público que optou pelo ingresso de maior valor. O espaço reduzido e o desconforto térmico forçaram parte dos espectadores a migrar voluntariamente para a pista comum em busca de melhor acomodação. Diante da excelente visibilidade que a arquitetura da casa oferece em qualquer ponto, cabe à produção reavaliar o dimensionamento desse setor, seja ampliando a área física correspondente ou limitando as vendas de ingressos para respeitar rigidamente a capacidade real do local.

Já no segundo bloco do repertório, a aveludada “Stand Away” revelou-se perfeitamente adequada ao timbre e à tessitura de Alírio. Em contrapartida, “Tide of Changes” demandou uma entrega mais agressiva e o uso de drives vocais que conferissem o peso necessário à composição. Embora “Angels and Demons” e “Waiting Silence” tenham mantido o alto nível técnico, a execução de “Wuthering Heights” exige uma análise mais criteriosa. A peça, originalmente escrita para uma soprano e imortalizada pela interpretação dramática de Andre Matos no álbum Angels Cry (1993), impõe um desafio hercúleo ao exigir a manutenção do tom original.

A iniciativa de resgatar a faixa atende a um desejo antigo da base de fãs e merece reconhecimento pelo arrojo. Todavia, a execução técnica careceu de maior precisão no posicionamento das notas. Especialmente nos refrões e após o segundo verso, notou-se uma clara dificuldade em sustentar os registros superagudos com o brilho e o punch necessários, resultando em um falsete que destoou da firmeza apresentada nas músicas anteriores. É evidente que o desgaste físico natural e a fadiga muscular das pregas vocais na reta final do show influenciaram o rendimento, indicando que o arranjo ou a posição da música no setlist podem ser estrategicamente repensados para apresentações futuras. Pelo esforço, Alírio se mostra nobre e digno de respeito!

Em uma escolha estrutural sagaz, o hino máximo da banda, “Carry On”, não foi guardado para o encerramento, mas posicionado estrategicamente para incendiar a noite. O resultado foi uma catarse absoluta: o público, que conhece cada compasso e respiração dessa obra, entregou-se a um transe coletivo, ecoando uma melodia que há décadas define o metal nacional e que ganhou contornos majestosos na interpretação de Alírio. A mesma reverência mística envolveu “Rebirth”, cujo coro em uníssono converteu o Vivo Rio em um templo de nostalgia e superação, resgatando o peso emocional de um período que transformou a história dos fãs. Para o ato final, as cortinas do bis se abriram para “Nova Era”, selando o espetáculo com uma explosão de sorrisos, reciprocidade e aplausos — o fecho de ouro perfeito para um retorno que se pretendia triunfal.

Ao cruzar a linha de chegada dessa maratona emocional, o balanço final aponta para o êxito: Alírio Netto não apenas superou o crivo de uma das bases de fãs mais exigentes do gênero, mas o fez entregando a própria alma ao palco, provando que a lendária vaga de frontman do Angra está em mãos dignas. Diante de um horizonte promissor, que já vislumbra um novo álbum de estúdio e caminhos criativos inexplorados, o sentimento geral é de renovação. Enquanto os mais tradicionais celebram o resgate dos agudos limpos, notas altas e das pérolas da fase clássica, os céticos observam atentos para ver até onde essa chama pode queimar. A verdade inabalável é que, acima de qualquer debate, o metal brasileiro celebra o pulsar forte de seu coração mais audaz. Seja bem-vindo, Alírio. Vida longa ao Angra!

Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Top Link pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.


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