Texto e Edição: Gustavo Franchini

Com o coração esculpido pelas lendas da alta fantasia, o prolífico cantor italiano Fabio Lione retornou às terras brasileiras para evocar os tempos de glória do power metal melódico e sinfônico. O eterno e respeitado mago, consagrado por sua jornada no Angra e imortalizado como a voz mítica do Rhapsody of Fire (originalmente Thundercross, depois mundialmente conhecido como Rhapsody, alterando o nome em 2006 por questão de direitos autorais e marca registrada), de fato escolheu o Brasil como o palco sagrado para celebrar o seu legado grandioso.
Após o triunfo da turnê anterior com o clássico Symphony of Enchanted Lands (1998), Lione conjurou este ano uma nova e épica aventura: a execução na íntegra de Dawn of Victory (2000). Este álbum, um verdadeiro pilar do gênero, foi o amuleto que o alçou ao topo do reino musical na cena, coroando-o por sua interpretação vocal visceral, criatividade magistral e técnica irretocável.
Em uma decisão digna dos grandes reis, a performance deixou de lado bases pré-gravadas e samples para ter uma sonoridade orgânica. Em vez de artimanhas digitais, Lione convocou uma verdadeira corte musical; a união da Camerata Filarmônica de Indaiatuba com a Orquestra Geek e acompanhado por uma competente banda de apoio. Juntos, os músicos empunharam seus instrumentos e reproduziram com absoluta fidelidade os arranjos orquestrais e a imponência das gravações originais. O resultado foi um feitiço de imersão total — a realização do sonho definitivo de qualquer jogador de RPG que já cruzou masmorras e enfrentou dragões ao som dessas trilhas sonoras.
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A caravana iniciou sua marcha por Belo Horizonte e Brasília, estabelecendo seu terceiro bastião no Rio de Janeiro, no Teatro dos Quatro, no dia 7 de outubro (quarta-feira). As expectativas foram superadas de forma mística: mesmo no coração de uma cidade regida pelo samba e pelo funk, e em pleno crepúsculo de um dia útil, o teatro transformou-se em um salão de banquetes praticamente lotado. Ali, os clãs cariocas uniram suas vozes em um coro fervoroso de pura empolgação.
Nota do Editor: Até o momento da publicação desta resenha, os shows subsequentes da turnê em Porto Alegre, Curitiba e São Paulo também já ocorreram, todos tendo uma repercussão positiva e reforçando a atemporalidade das músicas do Rhapsody of Fire e, claro, o quanto Lione é querido pelo público brasileiro.
Após uma espera de alguns minutos para afinar instrumentos, organizar o público nas cadeiras e posicionar os fotógrafos, a introdução de “Lux Triumphans” ecoa pelo teatro e a ansiedade toma conta de todos. E então, o riff emblemático de “Dawn of Victory“ clama pelo seu poeta: Fabio Lione surge para cantar os primeiros versos com muita energia, algo que se torna corriqueiro ao longo das quase 20 músicas da noite.
Uma característica inegável do vocalista é sua presença de palco vibrante, que não deixa a peteca cair em momento algum. Ele levanta o público em literalmente todos os cantos do teatro, visto que diversas vezes percorre o local e canta no meio da galera, interagindo tanto durante as músicas quanto nos intervalos. Nesses momentos, sente-se à vontade para contar histórias curiosas de bastidores e fazer comentários divertidos. Aliás, é de impressionar como seu português está afiado, fazendo a alegria da plateia ao usar gírias e expressões unicamente brasileiras.
Aos 53 anos de idade, é impressionante como ele ainda mantém a qualidade na projeção de notas em linhas vocais altamente complexas, gravadas originalmente há quase três décadas. Lione alcança tons difíceis com técnica graciosa e um alcance de cair o queixo, somado ao fato de que sua interpretação é, de fato, majestosa — um dos grandes pontos que o definiram, indubitavelmente, como uma das melhores vozes da cena mundial. Aliás, vale ressaltar como sua voz se encaixa perfeitamente na pegada de alta fantasia, talvez pelo costume em ouví-la neste formato desde os anos 90.
Tais atributos puderam ser observados na excelente “Triumph for My Magic Steel”, música tocada pela primeira vez ao vivo no Brasil para o deleite dos cariocas. Em “The Village of Dwarves”, a galera simplesmente levantou das cadeiras e cantou junto, como um verdadeiro show de rock deve ser. Na sequência, veio a pulsante “Dargor, Shadowlord of the Black Mountain”, que teve seu nome anunciado aos berros por uma fã próxima ao palco. Sensacional!

O ritmo cadenciado de “The Bloody Rage of the Titans”, que contou com um belo coro de quatro vozes ao fundo, abriu caminho para uma das músicas favoritas do próprio Lione (segundo ele mesmo), a poderosa “Holy Thunderforce”. Correndo de um lado para o outro, o drive arrebatador do vocalista durante os versos demonstrou a força dessa composição ao vivo, considerada uma das mais pesadas da era Rhapsody of Fire. O momento de descanso (pelo menos para os vocais de Lione) veio com a instrumental “Trolls in the Dark”, que anunciou a envolvente “The Last Winged Unicorn”, cuja densidade facilmente a faria parte da trilha sonora de grandes produções de anime ou jogos de RPG.
Por falar nisso, antes da próxima música, Lione compartilhou uma curiosidade de bastidores: ele contou que, em 1998, recebeu uma ligação da Konami (famosa empresa japonesa de jogos) para que sua música fizesse parte da franquia Castlevania. Embora os planos originais mirassem lançamentos daquela época (como a era de transição dos consoles e o posterior catálogo do PlayStation 2), o projeto acabou não avançando por questões burocráticas da época. A música em questão era nada mais, nada menos do que o hit máximo da banda, “Emerald Sword”, que simplesmente levou todos à loucura no teatro. Aliás, por algum motivo desconhecido (talvez a longa duração de mais de 9 minutos), a única faixa não executada do icônico álbum Dawn of Victory foi a ótima “The Mighty Ride of the Firelord”, que realmente fez falta para os fãs de carteirinha.
A partir dali, o repertório transformou-se em uma mistura de sucessos de seu tempo no Rhapsody of Fire e alguns covers inusitados que, honestamente, não combinaram muito com a proposta conceitual da turnê. Por outro lado, o momento serviu para atestar a enorme versatilidade e as amplas influências musicais do cantor. Uma das melhores composições da discografia de sua antiga banda, “Wisdom of the Kings”, mostrou-se presença obrigatória em eventos desse porte e quase gerou uma roda de mosh, o que só não aconteceu devido às cadeiras fixas do teatro.
A noite guardou ainda espaço para a belíssima “The Magic of the Wizard’s Dream”, a típica música que ‘não sabíamos que precisávamos tanto ouvir ao vivo’. A performance foi uma homenagem ao lendário ator Christopher Lee, que participou originalmente da gravação de estúdio e do videoclipe oficial dividindo os vocais com Lione, na época em que tinha 82 anos de idade. Um momento genuinamente emocionante do início ao fim. De mago para mago!

O grande destaque do show para os fãs que preferem o peso do álbum de estreia, Legendary Tales (1997), foi a rara “Warrior of Ice”. Sendo uma das canções mais difíceis de cantar logo nos segundos iniciais, foi compreensível notar que Lione se poupou no agudo que acompanha o riff de guitarra. Particularmente, essa faixa deveria ser presença fixa em seus repertórios pelo punch inigualável de suas melodias. Logo na sequência, veio a belíssima balada cantada inteiramente em italiano, “Lamento Eroico” (do álbum Power of the Dragonflame, de 2002), proporcionando a oportunidade ideal para o vocalista demonstrar todo o seu lado operístico.
Com arranjos de cordas inspiradoras e de cair lágrimas, “The Wizard’s Last Rhymes”, do EP Rain of a Thousand Flames (2001), consolidou-se como uma das grandes surpresas da noite, erguendo-se como um épico de proporções gigantescas. Por outro lado, foi justamente nesse momento que ficaram evidentes os problemas técnicos no som do teatro. Além de uma equalização falha na mesa de som, fazendo com que as linhas de violino ficassem muito abaixo dos outros instrumentos em alguns solos, o sistema de PA demonstrou intermitência em diversos trechos, chegando a cortar o som por breves segundos. Isso atrapalhou a imersão da plateia e visivelmente gerou frustração nos músicos. Embora sejam imprevistos comuns ao vivo, são falhas que demandavam uma resposta mais ágil por parte da equipe técnica.
O cover de “Miss Sarajevo” (U2), dedicado às crianças em situação de vulnerabilidade em zonas de guerra, acabou dispersando um pouco o público devido ao seu andamento, apesar de sua bela e nobre intenção lírica. Da mesma forma, “Tears of the Dragon”, da carreira solo de Bruce Dickinson, pareceu destoar do conceito fantástico construído ao longo do setlist. Em contrapartida, “Silent Lucidity” (Queensrÿche) encaixou-se perfeitamente no timbre de Lione e, potencializada pelos arranjos orquestrais, transformou-se em uma versão memorável. Para encerrar o espetáculo, o cantor atendeu ao pedido unânime do teatro com a sensacional “Land of Immortals”, selando mais uma noite de sucesso. Que Fabio Lione retorne em breve com novas turnês!
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Acesso Music e Estética Torta pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.
Veja a galeria de fotos do show (Fabio Lione/ RJ):
























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