Texto: Thiago Rahal Mauro

Foto: @mrossifoto / Live Nation Brasil
Poucas bandas no mundo conseguem entrar em um estádio como quem entra na própria casa. O AC/DC é uma delas. Na noite de 24 de fevereiro de 2026, no MorumBIS, em São Paulo, o grupo transformou um show gigantesco em uma noite mágica: riffs marcantes, repertório cirúrgico e uma relação direta com o público, sem artifícios desnecessários. Foi uma apresentação que não tentou parecer histórica. Apenas foi.
Desde cedo, o clima ao redor do estádio já indicava que não seria uma noite comum. Havia fãs de diferentes gerações, camisetas de várias fases da banda, grupos inteiros cantando refrões antes mesmo da abertura dos portões internos para a área de pista. O AC/DC tem esse efeito raro de reunir não apenas admiradores, mas praticantes de um tipo de liturgia do rock. E o MorumBIS, lotado e pulsando, respondeu como um templo pronto para o ritual.
A organização da noite também ajudou a sustentar essa sensação de grande evento bem resolvido. Tudo aconteceu no horário. Primeiro, a abertura com o The Pretty Reckless às 19h30. Depois, às 21h em ponto, o AC/DC em cena. Em tempos de mega produções frequentemente reféns de delays, essa pontualidade diz muito sobre a natureza da banda: respeito pelo público, foco na música e confiança absoluta no próprio material. Quando se tem um repertório desse tamanho, não é preciso inventar atmosfera. Basta tocar.
Banda de abertura
O The Pretty Reckless cumpriu muito bem seu papel e foi além do protocolo de “banda de abertura”. Taylor Momsen (vocal), Ben Phillips (guitarra), Mark Damon (baixo) e Jamie Perkins (bateria) subiram ao palco com uma apresentação segura, pesada e bem planejada para a dinâmica do estádio. “Death by Rock and Roll” abriu os trabalhos com impacto imediato, e a sequência com “Since You’re Gone” e “Follow Me Down” mostrou uma banda consciente do espaço que ocupava e de como ocupá-lo: sem exageros, mas também sem recuar diante de um público majoritariamente ali pelo AC/DC.
A única ressalva recai sobre alguns refrãos, que em certos momentos poderiam soar mais pegajosos e convincentes. É justamente nesse ponto que se percebe a falta de um olhar mais clínico de um produtor mais experiente, capaz de lapidar melhor o impacto melódico sem comprometer a identidade do grupo.
Ainda assim, o mérito do The Pretty Reckless esteve em não tentar competir com a atração principal e, sim, em sustentar sua própria linguagem. Momsen foi o principal destaque da apresentação, com presença de palco marcante e controle absoluto da linha de frente, causando ótima impressão. A banda levou ao MorumBIS sua assinatura de peso moderno, melodias fortes e atmosfera mais sombria, com faixas como “Only Love Can Save Me Now”, “For I Am Death” e “Witches Burn” mantendo a temperatura alta e consolidando uma abertura consistente, com bom encaixe sonoro.
Na reta final, o grupo encontrou ainda mais resposta da plateia com “Make Me Wanna Die”, “Going to Hell” e “Heaven Knows”, antes de encerrar com “Take Me Down”. Foi um show de abertura inteligente, bem executado e com personalidade, daqueles que realmente preparam o terreno em vez de apenas preencher o tempo. Quando o The Pretty Reckless saiu de cena, o estádio já estava aceso. Faltava apenas a faísca principal.

Foto: @camilafcara / Live Nation Brasil
Show principal: AC/DC e sua relação com o público brasileiro
Brian Johnson (vocal), Angus Young (guitarra), Stevie Young (guitarra), Chris Chaney (baixo) e Matt Laug (bateria) entraram pontualmente às 21h e abriram a apresentação com “If You Want Blood (You’ve Got It)”, uma escolha que funcionou perfeitamente. Não houve aquecimento gradual. O AC/DC começou impondo volume, intenção e presença, como se dissesse logo no primeiro minuto que o show seria construído na marra dos riffs e na força de um repertório que não admite distração.
“Back in Black”, na sequência, foi o primeiro grande abalo sísmico da noite. Há músicas que já não pertencem mais apenas à banda que as compôs, e sim ao imaginário coletivo. Essa é uma delas. O MorumBIS virou coro instantaneamente, e a impressão era de que cada pessoa ali conhecia não só a letra, mas o exato jeito de cantá-la. O AC/DC tem essa capacidade de transformar execução em gatilho emocional, sem cair em sentimentalismo. O que acontece é físico: o riff entra, o corpo responde.
É preciso falar sobre Brian Johnson. Dono de um carisma fora do comum, de uma voz ainda impressionantemente firme e de uma performance até certo ponto teatral, o vocalista consegue incendiar o público em todos os momentos com seu jeito absolutamente peculiar. Poucos cantores dominam um palco como ele. Sem dúvida, uma lenda viva do rock.
A entrada de “Demon Fire” mostrou que a banda não trata o repertório recente como obrigação protocolar. A música se encaixou com naturalidade no fluxo da apresentação, mantendo o peso e a pulsação em alta. Em seguida, “Shot Down in Flames” devolveu o show ao terreno clássico com a secura que sempre foi uma assinatura do AC/DC: nada sobra, nada falta. Cada riff de guitarra serve à canção. Cada virada empurra adiante. Cada refrão vem para ser dito junto.
Então chegou “Thunderstruck”, e o estádio explodiu. O riff inicial de Angus Young continua tendo o efeito de uma sirene de guerra para plateias de rock. É uma música que não precisa de introdução porque ela própria é a introdução de um estado de espírito. Foi um dos primeiros ápices absolutos da noite, daqueles momentos em que se percebe claramente a passagem do bom para o grande show. O público não apenas cantou. Participou como elemento estrutural da música.
A inteligência do setlist apareceu logo depois, quando a banda escolheu não insistir no pico e trabalhou a dinâmica. “Have a Drink on Me” desacelerou sem esfriar, sustentando o groove e o balanço.

Foto: @mrossifoto / Live Nation Brasil
“Hells Bells” é uma daquelas músicas que se tornaram hinos. Ela trouxe a mudança de clima que o AC/DC domina como poucos. Há algo de teatral na faixa e, quando o sino entra em cena, o público vai ao delírio. Para quem é são-paulino, o momento teve um significado ainda mais especial: nos tempos de Rogério Ceni, ídolo do Tricolor, o time entrava em campo ao som dessa música. Ouvi-la justamente naquele estádio tornou tudo ainda mais mágico. A faixa reorganizou a atmosfera do MorumBIS e abriu espaço para outro tipo de tensão, mais grave, mais arrastada e igualmente poderosa.
“Shot in the Dark” reafirmou a boa forma da banda em material mais recente, enquanto “Stiff Upper Lip” entrou como uma espécie de lembrete do quanto o AC/DC também sabe trabalhar swing e sujeira em andamento médio. Essa parte do show foi especialmente forte porque revelou um aspecto nem sempre lembrado quando se fala da banda: o repertório pode até parecer monolítico para quem observa de fora, mas ao vivo ele é cheio de nuances de andamento, ataque e temperatura.
A partir de “Highway to Hell”, o MorumBIS entrou de vez em estado de combustão. Se o show já vinha em alta voltagem, ali ele ganhou contornos de comunhão coletiva. O riff, reconhecido no primeiro segundo, foi recebido como senha para uma explosão imediata, e o refrão virou um hino de arquibancada cantado em uníssono, com aquela força rara de música que atravessa gerações sem perder impacto. Ao vivo, “Highway to Hell” tem esse efeito quase físico. E, naquele momento, arrastou o estádio inteiro para frente.
Há também um simbolismo especial na execução dessa faixa em um show do AC/DC. “Highway to Hell” carrega a essência mais direta, irreverente e monumental da banda, condensando em poucos minutos tudo o que fez o grupo se tornar uma referência absoluta do rock de arena. No MorumBIS, ela soou gigantesca, mas sem perder a sujeira e a contundência que a tornaram clássica. Foi daqueles momentos em que a música parece maior do que o próprio palco, porque já pertence à memória emocional do público.
Na sequência, “Shoot to Thrill” manteve o ritmo em altíssimo nível, recolocando a apresentação em velocidade e com riffs certeiros. “Sin City” trouxe um respiro de malícia e cadência, com andamento mais arrastado e clima mais sinuoso, enquanto “Jailbreak” surgiu como um dos trechos mais interessantes da noite justamente por ampliar a narrativa do show, com mais construção e tensão. Em vez de apenas empilhar hits, o AC/DC mostrou também inteligência no setlist, criando contraste e dinâmica dentro de um repertório que, nas mãos da banda, segue soando vivo e imprevisível.

Foto: @mrossifoto / Live Nation Brasil
A banda emendou na reta final “Dirty Deeds Done Dirt Cheap” e “High Voltage” como duas pancadas, reafirmando a veia mais crua, direta e insolente do grupo, antes de despejar “Riff Raff” com energia impressionante e que fez o bloco crescer ainda mais. Foi um trecho em que a banda soou particularmente solta e afiada, sem qualquer traço de automatismo. Brian Johnson conduzia a linha de frente com carisma, experiência e presença cênica, enquanto Angus Young seguia como centro gravitacional, guiando o olhar do público e a pulsação emocional do MorumBIS.
“You Shook Me All Night Long” apareceu, então, como um daqueles momentos em que o show deixa de ser apenas performance e se transforma em comunhão. Era inevitavelmente uma das mais cantadas da noite, com o estádio inteiro acompanhando cada verso como se participasse de um rito coletivo. Na sequência, “Whole Lotta Rosie” recolocou a apresentação em modo de festa total, unindo peso, irreverência e aquele espírito de estrada que o AC/DC carrega como poucos. A essa altura, já não se tratava apenas de assistir a um grande show, mas de mergulhar por completo no universo da banda e permanecer ali até o último acorde.
E então veio “Let There Be Rock”, o coração performático da noite. Mais do que uma música dentro do set, ela surgiu como plataforma para Angus Young fazer o que faz de melhor: transformar solo em narrativa, virtuosismo em espetáculo e insistência em linguagem. O trecho estendido de guitarra foi recebido com fascínio e festa, e não por acaso. Angus não toca apenas para impressionar. Ele toca para incendiar. E incendiou. O MorumBIS inteiro orbitou sua guitarra naquele momento.
No bis, “T.N.T.” entrou como convocação final para o delírio coletivo. O público respondeu de imediato, já completamente entregue, com o refrão ecoando em bloco. Para fechar, “For Those About to Rock (We Salute You)” encerrou a noite com a grandiosidade simbólica de sempre, como um selo de autenticidade de tudo o que havia acontecido antes. É uma canção de despedida, mas também de afirmação. O AC/DC não sai de cena pedindo aplauso. Sai saudando e sendo saudado.
O show de 24 de fevereiro de 2026, no MorumBIS, foi mais do que uma sequência impecável de músicas clássicas. Foi uma demonstração de ofício, repertório e identidade. Em um momento em que muitos espetáculos se sustentam em excesso de conceito e cenografia, o AC/DC segue provando que ainda existe uma forma brutalmente eficaz de dominar um estádio: entrar no horário, ligar os amplificadores e tocar canções que o tempo não conseguiu desgastar. Em São Paulo, isso bastou para criar uma daquelas noites que permanecem.
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Live Nation e Motisuki PR pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.
Veja a galeria de fotos do show (AC/DC – São Paulo):









Veja a galeria de fotos do show (The Pretty Reckless/ São Paulo):












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