Glenn Hughes percorreu clássicos de sua carreira com brilhantismo em show de despedida no Rio

Texto e Edição: Gustavo Franchini

A relação especial do cantor e baixista inglês com o Rio de Janeiro vem de longa data, já que Glenn Hughes sempre se mostra disposto a comparecer em qualquer casa de shows que ofereça aos cariocas a oportunidade de presenciar turnês que se tornam verdadeiras aulas de como fazer rock. Após diversas passagens pela cidade (confira a cobertura feita pela nossa equipe dos shows de 2015, 2016, 2018 e 2023), era de se esperar que a lenda viva voltasse para o que fora anunciado como datas de despedida.

Prometendo um apanhado de sua vasta carreira de mais de 50 anos, a turnê começou de maneira perfeita em Porto Alegre e, antes do Rio, ocorreu um imprevisto em Belo Horizonte, pois o artista teve um quadro de desidratação e encerrou o show após o início da sexta música do repertório oficial. Isso causou certa preocupação, mas felizmente a noite de sexta-feira (14) foi completada com sucesso e o Circo Voador foi palco de um momento memorável.

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Os mineiros do Electric Gypsy foram responsáveis pela abertura do evento e a escolha não poderia ser mais acertada. O hard rock estava em alta durante aproximadamente 40 minutos de pura qualidade musical, na qual o quarteto demonstrou técnica, feeling e criatividade em composições autorais, além de alguns covers empolgantes, como “Hot for Teacher” (Van Halen) e “Shoot to Thrill” (AC/DC), que agitaram a galera a todo momento. Destaque para o desempenho do guitarrista Nolas e o vocalista Guzz, ambos afiadíssimos nas respectivas funções. É inegável o talento e potencial da banda. Se trilharem o caminho certo, definitivamente encontrarão espaço no cenário; não só nacional, mas mundo afora.

Às 21h40 em ponto, Glenn Hughes se juntou ao guitarrista Søren Andersen e Ash Sheehan nas baquetas para demonstrar o significado genuíno de um competente power trio. Sem firulas, “Soul Mover” é iniciada com total peso e refinamento sonoro, sendo possível ouvir cada nota dos instrumentos com exatidão, somado a uma equalização precisa da linha vocal do protagonista. A conexão artista-público se tornou instantânea, em casa lotada com fãs de todas as idades, algo muito bonito de se ver.

Com um repertório que abrange sua carreira solo, seus projetos Hughes/Thrall, Hughes/Iommi e Black Country Communion, além do Trapeze, clássica banda setentista que o apresentou para o mundo e, claro, o Deep Purple (alcançando desde aquela época o título de “A Voz do Rock”), de fato selecionar canções para um único show se torna uma tarefa hercúlea. Melhor para os presentes que puderam conferir o best of de um dos músicos mais proativos da cena.

Considerando o lançamento do novíssimo Chosen (2025), a inspirada “Voice in My Head” e a faixa-título mostraram que vieram para agregar a outras que sempre são executadas, como “Can’t Stop the Flood”, enquanto “First Step of Love” (Hughes/Trall) e “Way Back to the Bone” (Trapeze) têm o punch necessário para se consolidar em uma possível coletânea futura. A espetacular “Medusa”, provavelmente a melhor composição de Hughes na era Trapeze, é um espetáculo à parte, visto que o vocalista a interpreta de modo sublime, algo que surpreende um total de zero pessoas. O que impressiona, na realidade, é a capacidade de um senhor de 74 anos de alcançar com maestria tons extremamente agudos, ao mesmo tempo que possui um drive visceral e percorre melismas em claras influências de soul/R&B.

A sequência veio com a dupla poderosa “Grace/ Dopamine” (Hughes/Iommi), praticamente um heavy metal, abrindo espaço para talvez o momento mais esperado com “Mistreated”, clássico de sua era Deep Purple, que sempre é tocada de maneira estendida na introdução. Aliás, a interação do britânico com o público foi constante, contando histórias de algumas músicas e proclamando seu amor pelos brasileiros, gerando um sorriso mútuo que poucos são capazes de provocar com tanta autenticidade.

A dinâmica entre músicas e a animação da plateia, sempre enérgica, realmente chamou a atenção. Tudo fluía de um jeito tão orgânico que parecia que todos estavam unidos em prol da vibe proporcionada, tornando este um dos shows mais importantes que Hughes fez em solo tupiniquim. A cadenciada “Stay Free” (Black Communion) e seu refrão cantado em uníssono finaliza a prévia do bis. E aí a magia veio com a belíssima versão acústica de “Coast to Coast” (Trapeze), tendo Hughes apenas no formato violão e voz, abrilhantando ainda mais a noite em suas texturas e cores musicais.

O riff frenético de baixo em “Black Country” contrasta com o anúncio de encerramento ao tocar os primeiros acordes de “Burn”, desta vez em versão mais enxuta, tanto na parte vocal (menos uma ponte) quanto instrumental (menos o solo de teclado), em clima de festa. E se é pra ter motivo pra comemorar, agora temos um: Glenn Hughes fez um breve discurso no final e disse, sem papas na língua, que precisa voltar ao Brasil. Sim, isso mesmo! Agora resta aguardar um possível retorno do mestre à cidade maravilhosa.

Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Dark Dimensions e JZ Press Assessoria pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.


Veja a galeria de fotos do show (Glenn Hughes/ RJ):



Veja a galeria de fotos do show (Electric Gypsy/ RJ):


Setlist Electric Gypsy:
1 – More Than Meets the Eye
2 – Nine Lives
3 – I’m Down (For Her)
4 – Hot for Teacher
5 – Love is a bitch
6 – Right On
7 – Shoot to Thrill
8 – Till the Levee Runs Dry
9 – Shoot ‘em Down


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