Texto e Fotos: Daniel Croce

Em sua quinta passagem pelo Brasil, pode-se dizer que finalmente o Dark Tranquility, sexteto de Gotemburgo – o berço do death metal melódico, estilo que influenciou toda uma geração, incluindo o metalcore norteamericano – fez jus à sua história, peso e importância para o estilo. As passagens solo em 2010/14/17 infelizmente tiveram adesão pífia por parte do público, mesmo o paulistano, dado a comparecer em peso quando uma banda histórica passa pela cidade. Até fizeram bonito em 2024 no festival Bangers Open Air, mas é difícil mensurar o real público de uma banda em evento grande com tantas outras dividindo atenção.
Em um Carioca Club quase lotado, o grupo ainda liderado por Mikael Stanne, o boa praça mais simpático da Suécia, apostou no certo e faz uma turnê com metade do setlist focado em dois álbuns clássicos: o indiscutível The Gallery (1995), aquele que é fácil um 10/10, e nos hits de Character (2004).
Mesmo fã da banda desde 1997, tendo atendido aos 3 shows “solo” da banda, este que vos fala ficou estupefato e feliz com o comparecimento significativo do público, principalmente o feminino. Algo aconteceu nesses últimos anos; talvez os discos mais recentes (dos quais gosto todos, mas não são nem perto das ‘pedradas’ que eles já lançaram nos anos 90 e começo dos anos 2000) tenham ligado uma chave no público melodeath. Ou realmente a ficha caiu para a maioria: não é toda hora que um dos gigantes do estilo pisa por aqui.
Logo de cara, que é para não ter dúvidas que eles não estavam para brincadeira, a entrada já se faz presente com o cartão de visitas da banda para o mundo, lançado em 1995, quando os membros originais tinham acabado de fazer respectivamente 21 e 22 anos de idade: “Punish My Heaven”. Toda uma geração de garotos adolescentes, que tiveram contato com essa música pela primeira vez, eu incluso, caímos para trás quando ouvimos isso. “Ah, mas o Heartwork do Carcass é o marco zero do death metal melódico”. Sim! Contudo, tinha algo nessa música, aliás, em todo o álbum, que ‘clicou’ algo em nós. O estilo de melodia, de condução dos skank beats e blasting beats, as partes de violão folk tipicamente escandinavos inseridos nos meios das músicas. Enfim, foi uma tempestade perfeita.

Seguiram com outras duas pedradas: “Edenspring” e “Lethe”. “Lethe” é figura fácil até hoje nos setlists da banda, e posso considerar como ‘outra chave’ que foi ligada em nós. Trata-se de uma balada death metal. Quando a palavra ‘nas ruas’ ali em 1997 diziam que o Dark Tranquillity compôs uma balada death, o único jeito foi ouvir para crer. Que coisa linda, meu Deus! Aquela introdução de dedilhado do baixo que antecedia o ‘esporro’ musical que se sucederia, pegou todos com as calças na mão. Quando vi isso pela primeira vez em 2010, quase chorei. Hoje em dia, é catarse, emoção.
Fechando o set do The Gallery, mais duas pérolas: “The Emptiness From Which I Fed” e “Dividing Line”. Não tem discussão, um dia eles precisam fazer um especial desse álbum todo tocado direto, sem parar. Não tem música fraca ou mediana.
Seguido, veio o especial do álbum Character, lançado 10 anos depois, em 2005. Não é, na minha humilde opinião, tão genial quanto aquele da década anterior. O álbum anterior a esse, Damage Done, por exemplo, é tão genial que até as faixas bônus são ótimas. Outro disco 10/10. Mas a banda soube pincelar os melhores momentos deste disco homenageado, ‘caindo no pau’ com a porrada da faixa de abertura, “The New Built”, seguida por outros bons momentos como “One Thought” e “The Endless Feed”. Na vinda da banda em 2017, eles desencavaram a pancada “Through Smudged Lentes” e, ainda bem, mantiveram nesta tour. Mas a conclusão do bloco com a linda balada death “My Negation” e o super hit, desses que nunca faltam nos shows deles, “Lost to Apathy”, foram a cereja do bolo na conclusão da primeira metade do show.
Banda boa que é, tem um vasto repertório para escolher o que colocar num show de 100 minutos, que se souberem fazer direito, você nem sente que nenhuma música do citado Damage Done entrou no repertório. É, nenhuma! E mesmo assim, a segunda metade foi feita das melhores dos quatro álbuns mais recentes, que convenhamos, são as faixas de trabalho. E representam o melhor que a banda ainda pode produzir.

Como que escolhidas a dedo, “Atoma”, excelente power ballad do álbum homônimo, “The Last Imagination” e “Not Nothing” representaram o lançamento mais recente Endtime Signals, enquanto que a linda “Phantom Days” marcou presença em nome do disco Moment – primeiro e único a contar com dois membros ilustres: Chris Amott (ex-Arch Enemy) e Anders Iwers (dizem ainda ser do Itamar, que anda paradão), irmão do ligeiramente mais famoso Peter (ex-In Flames). Boas escolhas.
Aquele que acho o terceiro disco 10/10 deles, Fiction (2006), entrega a ótima “Terminus – Where Death is Most Alive” e aquela que já padronizou como a encerramento dos shows: “Misery’s Crown”, lindíssima, melhorada pelo cantarolar do povão acompanhando a melodia principal dela.
Toda emoção é bem-vinda. Toda homenagem também. Não faz muito tempo que o icônico vocalista Tomas “Tompa” Lindberg (At The Gates) faleceu e o Dark Tranquility prestou homenagem a uma das principais bandas egressas da trinca de ouro do death de Gotemburgo, ao executar a faixa de abertura do álbum mais famoso da dita banda, “Blinded by Fear” do grandioso Slaughter of the Soul. Como o próprio Mikael Stanne disse: “Não haveria Dark Tranquility se não houvesse At The Gates”.
Repito: nada do Damage Done. Seria impensável, se não fosse um show fechado e temático. Igualmente nada do The Mind’s I (1997), o sucessor de The Gallery, recheado de ótimas faixas, inclusive o hit incontestável “Insanity’s Crescendo”. Mas é aquilo, nem em show do Iron Maiden, naquelas turnês de enganar trouxa “com vários clássicos e vários lados B”, é possível abranger tudo de bom que o artista tem a oferecer. Mas com certeza, o sexteto de Gotemburgo mostrou bem mais coragem e entregou com mais vontade que o sexteto britânico.
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Overload (Lucas e Gustavo), Erick Tedesco e CK Concerts pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.

Veja a galeria de fotos do show (Dark Tranquility/ SP):





























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