Texto e Edição: Gustavo Franchini

A noite de segunda-feira (1) prometia um momento memorável a todos que aguardavam ansiosamente pelo show conjunto de duas das maiores vozes da música cristã brasileira, Mauro Henrique e Guilherme de Sá, respectivamente ex-Oficina G3 e ex-Rosa de Saron. A cidade maravilhosa já não contemplava um evento desses há alguns anos, ainda mais localizado na zona sul, no ótimo Teatro Clara Nunes, na Gávea, o que permitiu que muito mais fãs pudessem comparecer ao que de fato pode-se dizer que se tratou de um verdadeiro espetáculo.
Com um leve atraso após a banda de abertura, as cortinas se abrem, quando repentinamente Mauro Henrique aparece, guitarra empunhada em mãos, dá um singelo “Oi Rio!” com seu vozeirão e o show começa sem firulas, apenas pura música em cima do palco. E ali, o que se percebe é o quanto o artista consegue conquistar o público de maneira simples, apenas mostrando para o que veio, uma mensagem nobre e direta. Seu power trio competente apresenta um repertório que percorreu tanto a sua carreira solo quanto suas favoritas dos tempos de Oficina G3 e, claro, as versões covers que se tornaram tão famosas.
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A humildade é tamanha que, logo na primeira música, a guitarra desafinou e foi necessário interromper o show para afinar, ali mesmo, ao vivo. Aliás, mais à frente uma corda iria arrebentar e seria trocada pelo baixista, assim, na frente de todo mundo; e a plateia só conseguia sorrir e aplaudir, afinal, estavam diante de uma voz literalmente abençoada. O carisma de Mauro é contagiante, a mensagem é riquíssima e tudo é muito bem consolidado em canções que transcendem o compreensível, ainda mais quando são acompanhadas de um timbre que é digno de espanto (no bom sentido, claro). Vale ressaltar que lembra bastante o do americano Russell Allen (Symphony X), que de similar com o brasileiro só tem mesmo o estilo musical: rock/metal/progressivo. Drive, melismas, entonação e projeção perfeitas, independente do tom. Definitivamente um dos melhores cantores do país!
Após o sucesso da turnê FØRMA, o formato desta vez se aproxima mais do pocket show, rolando em torno de apenas uma seleção de dez músicas que, nas palavras do próprio Mauro: “tem tanta coisa a mais que eu queria tocar”. Mas o público realmente não tinha do que reclamar, já que canções enérgicas como “Ateu”, “Eu Sei” e “Descanso” estavam presentes, além de “Incondicional”, cantada em uníssono por todos. O destaque da apresentação vai para a belíssima versão de “Aonde Está Deus?” (Eli Soares), que ganhou arranjos de sintetizador de teclado na introdução e feelings novos na linha vocal; simplesmente sensacional! “Volta Criança” e a maravilhosa “Herege” também foram especiais, fazendo com que mesmo os que estavam cansados por terem saído do trabalho direto para o evento (afinal, era uma segunda-feira), independente da idade, se levantassem para celebrar aquela musicalidade que brilha como uma luz de notas delicadas.
A reflexão desta vez foi sobre compreendermos que, como seres humanos, vamos sofrer e passar por provações complicadas, a vida não é fácil, há sofrimentos, mas também alegrias e renovações de fé. Ele menciona que passou por muitas dificuldades emocionais em sua vida pessoal, ao mesmo tempo que sua atual esposa venceu a batalha contra o câncer (graças a Deus!), ou seja, temos que sempre manter confiança em deixar tudo nas mãos do Pai. Ao final do show, ficou a promessa de retornar ao Rio de Janeiro o mais breve possível, no intuito de trazer o lindo acústico ou mesmo a FØRMA Tour. Estaremos de braços abertos esperando pela sua nova vinda!
Um breve intervalo anuncia a entrada da banda de apoio de Guilherme de Sá, antes que o próprio surgisse a la Dave Grohl (Foo Fighters), exclusivamente por conta da aparência, já que sua voz é de outro mundo (muito melhor). Muitos gritos femininos puderam ser percebidos e era como se realmente a vibe tivesse mudado, até por conta do gênero das canções ser mais tendencioso ao lado do pop/emo/rock alternativo, tendo outra proposta, uma atmosfera vibrante que é mais melancólica, introspectiva e ritmo cadenciado. O curioso é que tudo se deu em sequência, ou seja, as músicas foram todas emendadas uma na outra, sem intervalos, quase como uma tentativa de tentar tocar o máximo possível dentro do tempo estabelecido.
E aí foi uma miríade de pérolas como “Rara Calma”, “Amigo”, “Verso e Frente” e “a impactante “Floresta de Bétulas”, todas melodicamente muito profundas. Grande parte do público sabia as letras de cor, cantando junto e muitas vezes a interação ocorreu com o microfone sendo lançado aos cariocas que fizeram a sua parte do início ao fim com maestria. Aliás, maestria é o que Guilherme tem de sobra com seu domínio absoluto dos drives, dando um peso incomensurável em linhas vocais que emocionam, demonstrando uma alegria por ver o quanto a resposta era positiva durante todo o show. Não era pra menos: pela segunda vez na noite a plateia pôde celebrar a música genuína com mais um artista tendo uma presença de palco impressionante. Sobrava boa vontade de poder finalmente estar na cidade que tanto esperou pela sua volta.
Logo veio “Extraordinária Vida”, “Neumas D’Arezzo” e até mesmo “Réquiem”. Óbvio que todos estavam enlouquecidos para ouvir “Cartas ao Remetente” e “O Sol da Meia Noite”, agitando a ponto do teatro ficar até pequeno para tanta animação. O respeito e carinho era mútuo! A reflexão de Guilherme pegou um pouco mais ‘na ferida’, ao falar sobre a hipocrisia do ser humano, que muitas vezes escolhe o caminho mais fácil, que o agrade no cotidiano, que represente um conforto dentro dos seus grupos mais próximos, algo que podemos ver claramente ao se tratar de política, ideologias e toda essa onda imagética nas redes sociais. É importante a busca pelos valores reais, princípios que fazem parte da pessoa de maneira autêntica, tendo consciência das fraquezas e defeitos, buscando sempre melhorar. Encerrando seu show depois de aproximadamente 1h15min, a frase “espero que a gente se reencontre mais vezes” ecoou nos corações de todos, e agora só nos resta aguardar por outra passagem da dupla, o quanto antes, em solo carioca.
Uma turnê que foi um grande acerto e que superou todas as expectativas, lotando a casa com pessoas de bem, sem bagunça, sem problemas, até mesmo tendo uma venda expressiva de merchandising. A única coisa que faltou, especificamente no Rio e em São Paulo, foi a reunião dos dois músicos no final para cantarem juntos pelo menos uma música (e não foi por falta de pedidos do público). Curitiba teve sorte na quarta-feira (3), visto que a surpresa rolou com a poderosa “Latitude, Longitude”, canção que remete a uma apresentação dos dois ao vivo em 2013. Belo Horizonte se emocionou também e agora será a vez de Brasília, o último show da turnê, no domingo (7). Louvado seja!
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a En Hakkore Records, Acesso Music, Sacrament Productions e Estética Torta pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.
Veja a galeria de fotos do show (Mauro Henrique/ RJ):




















Veja a galeria de fotos do show (Guilherme de Sá/ RJ):





















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