Texto e Edição: Gustavo Franchini

Foto: Paty Sigiliano
Ao mesmo tempo que o pop moderno atual busca repetir o que foi feito com sucesso no passado, artistas completos como o canadense Bryan Adams, desde a época de 80 inovam em diversos aspectos do gênero, em especial na composição de canções que embalaram os romances de casais durante décadas nas rádios em alcance global. Ainda que não seja apenas no pop que se consolidou, já que percorreu o hard rock e principalmente a world music, o cantor, compositor e baixista deixou claro para o público carioca, na noite de sexta-feira (6), que de fato há pessoas que envelhecem como vinho. E que safra!
Alguns minutos antes do horário previsto, o telão de alta resolução com fundo branco mostra cenas gravadas com tom de humor, anunciando o que estava por vir, enquanto era possível observar a casa praticamente cheia em todos os setores, o que é uma raridade nos dias de hoje no Rio de Janeiro. Pontualmente às 22h, eis que a estrela do espetáculo surge não no palco principal, mas em um palco alternativo, de menor proporção, no meio do público ao formato violão e voz, o que surpreendeu a grande maioria dos presentes, gerando êxtase em forma de gritos, sorrisos, pulos e toda forma de alegria possível.
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Ao longo do show, o que ficava cada vez mais claro é que Bryan Adams manteve a estrutura de toda a sua turnê internacional Roll With The Punches, alternando uma música ou outra (incluindo um QR Code na tela com possibilidade de pedidos pelos fãs ali, na hora), presenteando a plateia brasileira com a mesma produção que foi feita para os americanos, tendo como referência o evento na cidade de Nova York, igualmente incrível, e que nossa fotógrafa Patrícia Sigiliano teve a oportunidade de conferir ao vivo no ano passado. Considerando que o músico não pisava aqui no nosso país desde 2019, foram 7 anos de espera muito bem recompensados com um dos melhores shows da década. Sem exageros, apenas verdades que os possíveis críticos terão dificuldade em engolir.
Dando largada com uma versão compacta de “Can’t Stop This Thing We Started”, já dava pra sentir o clima que envolveria as mais de 2 horas de apresentação: reciprocidade total do público, que cantava todas as letras, demonstrando muito carinho pelo frontman, além de muita animação que se solidificou em uma emoção genuína. E, claro, uma condução de ritmo de um verdadeiro ícone do pop/rock que sabe do peso de seu sucesso e entrega tudo (e mais um pouco) para quem gastou seu dinheiro suado em ingressos que valeram cada centavo. A intensidade era tamanha que as vozes dos presentes eram ainda mais altas do que o próprio cantor, exigindo um aumento de volume do microfone.
Enquanto a balada “Straight From the Heart” possui teclado e bateria no original, ali toda a harmonia foi arranjada apenas para o violão e sinceramente ficou muito melhor, pois gera uma atmosfera intimista e se torna mais orgânica. “Let’s Make a Night to Remember” fecha o ato 1 com louvor, Bryan desce do pequeno palco e vai em direção ao palco grande, cumprimentando vários fãs ao longo do caminho, sem receios, apenas humildade pura. E todos respondem com respeito, dando o espaço necessário e sem alarde, o que só mostra que era um momento especial que ficará na memória de muitos pelo resto da vida.
A parte moderna de sua carreira começa com “Kick Ass”, tendo uma sonoridade bem jovial, iluminação trabalhada de maneira apropriada e finalmente com a banda de apoio completa. Composta por Luke Doucet na guitarra (no lugar de Keith Scott, parceiro de Bryan desde 1976, devido à questões de saúde apenas nesta perna da turnê), Gary Breit nos teclados e backing vocal, além de Pat Steward na bateria, a competência do quarteto é incontestável, tanto no aspecto técnico quanto no feeling. Inclusive, Bryan dá oportunidade para que cada um brilhe individualmente e como um time, o que é realmente lindo de se ver e ouvir.
Obviamente não poderia faltar “Run to You” e “Somebody”, puro suco do hard rock oitentista, que aliadas a “Roll With The Punches” com uma pegada completamente diferente e contemporânea, mostra como Bryan quis realmente mesclar diferentes fases de sua carreira no repertório, sem separar em blocos, quase como se fosse um ensaio de um best of de sua vasta discografia. Aliás, em um setlist que teve 31 canções executadas com maestria, os álbuns priorizados foram os recheados de hits como Reckless (1984), 18 Till I Die (1996) e a dobradinha Cuts Like a Knife (1983) e Waking Up the Neighbours (1991), somado ao novíssimo Roll With The Punches (2025).
Aqui no Brasil, o artista ficou mais conhecido pelas trilhas sonoras de filmes clássicos (como Robin Hood, Don Juan de Marco e Os Três Mosqueteiros), ainda que sua carreira tenha alcançado o status de bem-sucedido na mídia após o histórico dueto com Tina Turner em “It’s Only Love”, que ele faz questão de tocar em todos os shows como tributo à saudosa rainha. Ele brinca no palco falando que vai tentar uma tarefa impossível; cantar não só a sua parte, mas também a de Tina. Sucesso!

Foto: Paty Sigiliano
E aí que entra o motivo de o show ter sido tão memorável assim: o próprio Bryan Adams. Aos 66 anos de idade, é impressionante como manteve sua voz intacta, alcançando todas as notas, tendo bastante punch, drive, um peso absoluto que deixou todos boquiabertos por se tratar de alguém com mais de 40 anos na estrada. Como se não bastasse, ainda brinda sua impecabilidade com muita energia, interações constantes com a plateia, piadas direcionadas ao público brasileiro (até mesmo arriscando um português aqui e acolá), simpatia, carisma e uma performance que é uma autêntica aula. Se na atualidade vemos tantos artistas jovens que usam diversos efeitos vocais, playbacks e muitas vezes não conseguem reproduzir adequadamente ao vivo as gravações de estúdio, Bryan mostra que a comparação é inevitável, pois quem é talentoso e disciplinado de verdade não precisa de recursos extras para ter um desempenho de qualidade nos palcos.
Ao jogarem a bandeira do Brasil, ele rapidamente pega e a envolve em seu corpo. Aceitou o pedido para entrega de um cartaz com um desenho dele, dizendo que parecia mais com o ator Michael J. Fox (que curiosamente é seu amigo pessoal), arrancando gargalhadas dos presentes. Antes de tocar “This Time”, avisa pra não zoarem do cabelo dele. Esta teve a sincronização do vídeo original com a banda tocando cada nota, uma tarefa hercúlea considerando o retorno de cada integrante, sem margem de erro. Na “So Happy It Hurts”, um gigantesco carro inflável voa sobre os olhos atentos de quem estava na pista. Efeitos muito legais e luzes nas pulseiras (que acenderam principalmente em vermelhor, mas também em azul e verde). “Shine a Light” e sua tradicional onda de celulares preenchendo todo o Qualistage com a característica iluminação branca, resultando em beleza e reflexo do momento no telão. Ou seja, não faltou variedade de sentimentos.
Foi bonito de ver pessoas idosas dançando ao som de “You Belong tom Me” (que teve uma introdução de Blue Suede Shoes, de Elvis Presley), seguida do cover de “Twist and Shout” (composta por The Top Notes, ficando mais conhecida pela versão dos The Beatles). Camisas rodopiando no ar, diferentes faixas etárias simplesmente se divertindo e tendo um alívio real de todos os problemas cotidianos. Hits eternos como a belíssima “Heaven”, “Please Forgive Me”, “Have You Ever Really Loved a Woman?”, “Summer of ’69”, “All for Love”, dentre outros, contemplaram uma unanimidade: Bryan Adams é um dos maiores artistas da história da música. Presença certa em todos os shows do canadense, o hit máximo “(Everything I Do) I Do It For You” testemunha Bryan descendo do palco para cantar junto trechos da canção com os sortudos que estavam na grade.
Ele não disse se volta pro Brasil na próxima turnê. Não anunciou um novo álbum de estúdio. Contudo, se considerar a resposta enormemente positiva do público no Rio de Janeiro e em outras cidades que passou, como São Paulo (7) e Curitiba (9), é de se esperar que seremos agraciados com uma futura passagem do mesmo por terras tupiniquins. O próximo (e último show no país) será em Porto Alegre, no dia 11 (quarta-feira). Garanta já o seu ingresso, pois é um espetáculo imperdível para os amantes da boa música!
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Catto Comunicação e Mercury Concerts pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.

Foto: Paty Sigiliano
Veja a galeria de fotos do show (Bryan Adams/RJ):
* Devido a determinação do artista de não credenciar fotógrafos nesta turnê, as fotos a seguir foram tiradas diretamente do celular, portanto não estão com a melhor qualidade possível de uma câmera profissional















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