Texto e Edição: Gustavo Franchini

Foto: Paty Sigiliano
Sim, o título se alonga porque faltam palavras para traduzir a catarse coletiva e a honra de partilhar o mesmo espaço com um verdadeiro titã da música brasileira: o alagoano Djavan. A turnê Djavanear 50 anos Só Sucessos já anunciava sua força mística nos primeiros palcos que pisou, colhendo aplausos unânimes da crítica e corações arrebatados pelo público. A expectativa, naturalmente, tocava o céu. Mas a noite foi um milagre que rasgou o horizonte do provável, ecoando muito além do que nós, meros mortais, ousaríamos conceber em nossos sonhos mais profundos.
Sob o brilho de astros da TV e de múltiplas gerações que cresceram embaladas por suas trilhas sonoras em novelas da Globo, o público que lotou a casa floresceu em uma junção democrática, onde famílias inteiras partilhavam da mesma alegria contagiante. Ao longo de 25 canções, desvelou-se um repertório que é puro tesouro, provando que o artista é um arquiteto de afetos e uma verdadeira força criativa. Sua genialidade reside em tecer harmonias complexas, notas intrincadas e progressões mágicas que tocam o erudito e abraçam o popular com a mesma doçura. Suas texturas sonoras transcendem rótulos e preferências, consagrando o óbvio: a grande música é um idioma universal.
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Minutos após o horário previsto, os telões anunciaram os créditos da turnê enquanto a banda de apoio — um time de músicos de altíssimo calibre — subia ao palco. A introdução em versão instrumental de “Improviso” preparou o terreno para o momento em que Djavan finalmente surgiu, levando o público ao completo êxtase com os primeiros versos de “Sina”, cantada em uníssono. Emendando com a espetacular “Eu Te Devoro”, o artista conquistou rapidamente a plateia por completo, unindo lágrimas, saltos e sorrisos em uma só comunhão afetiva. Mais do que um cantor dono de uma discografia reverenciada, via-se ali um homem movido pelo amor ao que faz: mesmo no auge de seus 77 anos de idade, ele não parava um segundo sequer, dançando em seu próprio ritmo, sustentando sua voz inconfundível com um vigor impressionante.
Ao entoar a capella um trecho de “Delírio dos Mortais”, como uma ode de gratidão ao Rio de Janeiro — cidade que o consagrou gigante —, Djavan saudou o público com um caloroso “Boa noite”. A partir dali, desabou uma verdadeira chuva de sucessos. Canções como “Cigano” ganharam elegantes arranjos de jazz, enquanto “Um Brinde” trouxe uma sonoridade moderna. Sobre esta última, o cantor relembrou, sorridente, a brincadeira que propôs nas redes sociais, onde os fãs criaram letras para sua melodia, rendendo frutos divertidos. Houve espaço também para raridades preciosas como “Me Leve” e “Miragem”. Por fim, quando os acordes de “Nem Um Dia” e “Linha do Equador” (composta em parceria com Caetano Veloso) ecoaram, o amor transbordou, fazendo com que muitos se abraçassem em pura emoção.
Os minutos mais memoráveis da noite ocorreram no momento mais intimista do show, quando voz e violão bastaram para conduzir a dupla irretocável “Meu Bem Querer” e “Oceano”. Na segunda metade dos versos de ambas as canções, Djavan entregou o canto à plateia, regressando com força total nos refrãos. Sob uma iluminação cenográfica sublime em sutileza e minimalismo, o artista parecia coroado em um trono invisível; mais do que merecido. O coro do público ecoou com tamanha paixão que quase encobriu a voz do próprio mestre. Nenhuma gravação de áudio ou vídeo no YouTube seria capaz de traduzir a epifania de estar ali, ao vivo, sendo abraçado pela alma de um dos maiores ícones mundiais da MPB, da Bossa Nova e do Jazz.
Em “Lambada de Serpente”, o espetáculo reverenciou as raízes da música regional e a poesia de Cacaso, célebre letrista da MPB. Logo após, “Mal de Mim” trouxe à tona o romantismo incurável do artista, abrindo caminho para uma trinca arrebatadora: “Azul”, que baniu as outras cores do palco; “Açaí”, banhada por projeções praianas e referências ao fruto; e a belíssima “O Vento”. O trio de canções remeteu de imediato a presença saudosa de Gal Costa, sua eterna e magistral intérprete. Na sequência, o medley de “Serrado”, “Fato Consumado” e “Flor de Lis” tirou os pés do público do chão, provando que o samba também corre com maestria pelas veias do músico. A felicidade ali era um estado geral, celebrando o maior superpoder da arte: a capacidade de unir e comover todas as tribos.

Foto: Paty Sigiliano
É justo ressaltar a qualidade da banda que o acompanha, um time de virtuosos que não apenas executa o repertório de maneira ímpar, mas também borda as canções com improvisações sofisticadas e de extremo bom gosto, em um entrosamento orgânico. Essa engrenagem sonora ganha vida no sopro preciso de Jessé Sadoc (trompete e fluguelhorn), Marcelo Martins (sax tenor e flauta) e Rafael Rocha (trombone), que dialogam em harmonia com as teclas elegantes de Paulo Calasans e Renato Fonseca. A pulsação da noite pulsa firme nas cordas de Torcuato Mariano (guitarra e violão) e Marcelo Mariano (baixo), sob a condução rítmica e precisa de Felipe Alves na bateria. Para coroar essa sinfonia, as vozes de Clara Carolina e Jenni Rocha flutuam em backing vocals que trazem o brilho necessário.
“Quase de Manhã” — imortalizada pelo saxofonista David Sanborn em 1986 — ressurgiu revigorada por Marcelo Martins, entrelaçando-se a “Seduzir” em uma roupagem distinta. Na sequência, a catártica “Samurai” transformou a arena em uma imensa ciranda; uma apoteose tão bonita que merecia ser eternizada em um registro ao vivo. O encerramento antes do bis não poderia ser mais perfeito do que com a clássica “Lilás”. E o grand finale, selado com chave de ouro, uniu a delicadeza de “Um Amor Puro” à celebração festiva da reprise de “Sina”. Sob um mar de papéis picados, luzes cenográficas e cores, a alma da plateia transbordou em êxtase absoluto por uma noite inesquecível.
Diante do sucesso avassalador e dos ingressos já esgotados, Djavan estende sua poesia em solo carioca: além do show seguinte no domingo (02), o artista retorna à Farmasi Arena no sábado (08). No Brasil, a celebração aos seus 50 anos de carreira também passará por Florianópolis, Belém, Recife e Maceió (veja aqui mais informações), além de duas datas extras em São Paulo (Mercado Livre Arena Pacaembu), nos dias 12 e 13 de dezembro. Não perca a chance de testemunhar este verdadeiro espetáculo da nossa música. Vida longa ao Djavanear!
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Live Nation, Nobre Assessoria e Motisuki PR pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.

Foto: Paty Sigiliano
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