Rock in Rio 2026 – Dia 05/09: o segundo dia do festival é caracterizado pelo peso do gênero metal e presença forte do mosh, além de surpresas nas apresentações

A data mais pesada de todo o evento reúne fãs incansáveis debaixo de chuva, emoções e despedida de um grande nome nacional

Texto, revisão e edição: Gustavo Franchini

O segundo dia do Rock in Rio 2026 não fugiu à sua própria mística: o batismo das águas se fez presente. Superada a estreia de sol pleno, os dias seguintes trouxeram um firmamento inconstante e pancadas súbitas, embora a calmaria dos ventos tenha poupado o solo de grandes lamaçais. As novas engenharias de escoamento da Cidade do Rock mostraram sua valia, mitigando o acúmulo de poças. Diante da falta de grandes lonas ou espaços fechados além do Ecco (que estava bem cheio em todos os horários), o público buscou abrigo onde o espaço delimitava fronteiras; como o pavilhão do Itaú e os pubs do Global Village, que viraram verdadeiros formigueiros humanos nos minutos de torrencialidade. Sob o plástico branco das capas de chuva, que redesenhou a estética da multidão, o vigor não arrefeceu. O ápice veio com o entardecer devotado ao heavy metal, um verdadeiro cataclismo sonoro que esquentou e secou a alma nas catárticas rodas de mosh.

A umidade acabou por esvaziar os brinquedos e as experiências mais afastadas dos palcos principais. No front gastronômico, o Gourmet Square consolidou-se como um sucesso absoluto de público, muito embora a logística clame por melhoras para a próxima edição: o tempo de espera nas barracas facilmente superava a marca dos trinta minutos no crepúsculo do festival. Em paralelo, a loja oficial do Rock in Rio operou em constante efervescência, seduzindo aficionados por relíquias colecionáveis. O balanço final exalta o zelo invisível das equipes de saneamento, o pronto-socorro dos bombeiros e a cordialidade dos atendentes nos stands. Sobretudo, sobressaiu a conduta da plateia, que soube reverenciar os palcos menores e coabitar a pista em uma comunhão pacífica, civilizada e profundamente humana.

A nossa equipe fez a cobertura das bandas Noturnall & Russell Allen, Korzus, Major RD, Supercombo, James Hype, Black Pantera convida Nervosa, Poppy, Bad Omens, Sepultura, MGK, Bring Me The Horizon e Avenged Sevenfold.

Confira vídeos dos shows na seção ‘Destaques’ do Instagram

Palco Global Village

Noturnall & Russell Allen (★★★★★)

Celebrando sua quarta participação no festival e 13 anos de estrada, a banda paulistana de metal progressivo Noturnall enfrentou o desafio de disputar a atenção do público com um gigante como o Sepultura, além de uma chuva que insistia em cair. Ainda assim, o quarteto triunfou: atraiu um excelente contingente de espectadores composto por fãs genuínos, que estavam ali puramente pela música. Tocar para a própria comunidade fez toda a diferença.

O repertório começou focado nas composições autorais da banda, faixas técnicas que evidenciam o virtuosismo e o primor técnico de cada integrante em seus instrumentos. No vocal, Thiago Bianchi deu uma verdadeira aula de canto, alcançando tons agudos com a precisão de um workshop. Músicas como a pesada faixa de abertura “Try Harder” e a neoclássica “Reset the Game” — que flerta abertamente com o power metal melódico — bastaram para empolgar o público colado à barreira do palco. O comportamento da plateia, inclusive, foi exemplar: sem empurrões ou disputas por espaço, todos demonstraram extrema educação, concentrados em absorver cada nota executada.

O primeiro convidado a subir ao palco foi um velho amigo da banda: Fernando Quesada (ex-Shaman e Noturnall), que exibiu sua faceta multi-instrumentista ao assumir a guitarra em “No Turn at All”, migrando depois para o baixo e o violão. Sócio da School of Rock Brasil, sua versatilidade como produtor transpareceu na escolha refinada dos timbres. Cabe destacar também a performance do guitarrista Guilherme Torres, que integra a banda desde o ano passado e provou que veio para ficar. É bom deixar claro que o baixista Xakol e o baterista Henrique Pucci também demonstram um trabalho de altíssimo nível.

Faltava apenas uma peça para completar o tabuleiro. Na metade do show, a lenda viva Russell Allen (Symphony X), um dos vocalistas mais reverenciados da história do metal mundial, surgiu no palco para o delírio do público. Como a atual turnê do cantor com a Noturnall pelo Brasil se caracteriza por um tributo a grandes vozes históricas que o influenciaram, a antológica “No More Tears”, da carreira solo de Ozzy Osbourne, abriu essa seção. A sinergia foi imediata, com a plateia cantando a plenos pulmões e alguns fãs visivelmente emocionados. Outro mestre imortalizado pelo Black Sabbath, o saudoso Ronnie James Dio, foi homenageado com “The Mob Rules”. Russell Allen impressiona pela potência descomunal e por um drive preciso, preservando o peso original da obra de forma rara.

O clima de festa se consolidou quando uma imensa bola inflável com o logotipo da banda foi lançada ao público, uma interação simples e eficaz que rendeu risadas e estreitou os laços entre artistas e plateia. Layne Staley foi o último homenageado da noite com o clássico “Down in a Hole”, do Alice in Chains, mantendo o público firme mesmo sob a chuva que se intensificava.

Em seguida, o show atingiu seu ápice emocional com o propósito central da vinda de Allen ao Brasil: a divulgação de uma composição dedicada à sua filha, que tem autismo, dando voz a quem convive com a condição e pedindo consciência das pessoas em relação ao respeito e apoio que são importantíssimos para a convivência em sociedade. Além da mensagem nobre, “Love Her Like I Do (Ava’s Song)” mostra-se uma canção espetacular, capaz de comover até os corações mais duros na plateia. Um momento verdadeiramente mágico.

O encerramento de um dos melhores shows do festival (e facilmente um dos três melhores do dia) veio com a avassaladora “Nocturnal Human Side”, principal hit da banda. Com um riff potente e um refrão grudento, Bianchi e Allen entregaram performances vocais de tirar o fôlego, coroando um setlist curto, porém impecável. Que retornem na próxima edição!

Nota do Editor: Imediatamente após a banda deixar o palco às pressas, antes mesmo que as cortinas se fechassem, um carro repleto de dançarinos invadiu a pista na maior animação. Eles começaram a performar “Livin’ la Vida Loca” (Ricky Martin), preenchendo todo o espaço do Global Village. O timing foi tão perfeito que arrancou gargalhadas do público que ainda não tinha tido tempo de se dispersar, criando um contraste de sonoridade divertidíssimo entre as atrações. Momento impagável!

Fotos / Setlist (Noturnall & Russell Allen)

Korzus (★★★★★)

Veteranos com mais de quatro décadas de estrada — e donos de uma discografia que, embora enxuta com apenas seis álbuns, traz hinos imortalizados na cena do thrash metal —, os integrantes do Korzus promoveram uma verdadeira apoteose. Eles pisaram em um palco que, honestamente, era menor do que mereciam. Uma banda deste calibre, capaz de reunir um público massivo que mal cabia na pista, deveria estar, no mínimo, no Palco Sunset. Por outro lado, a excelente qualidade do sistema de som do Global Village compensou a limitação do espaço: era possível sentir o peso avassalador de cada riff e a brutalidade das guitarras em praticamente todas as músicas.

Causou-me estranheza notar que alguns colegas da imprensa criticaram supostas instabilidades técnicas, quando, na realidade, o Korzus entregou uma das melhores qualidades de som de todo o festival. As melodias e as estruturas harmônicas eram ouvidas com extrema clareza; a bateria exibia excelente definição de timbre, sem frequências emboladas; e a voz estava na medida exata. Para um estilo musical que é propositadamente mais cru e calcado em distorções graves, a mixagem estava perfeitamente coesa. Esta análise vem de quem tem propriedade na área: trago a experiência de quem já gravou dezenas de vezes em estúdio, produziu composições complexas e atua na edição de áudio há anos. Portanto, a equipe técnica merece um elogio legítimo.

O carisma do vocalista e fundador Marcello Pompeu é um espetáculo à parte. Ele regeu com maestria uma plateia que se mostrou recíproca desde os primeiros acordes de faixas como “Truth”, “Raise Your Soul” e “Mass Illusion”. As rodas de mosh eram incessantes e inevitáveis, impulsionadas por uma sequência de guitarras pesadíssimas, capazes de arrebatar qualquer headbanger; inclusive quem ainda não conhecia o trabalho do grupo. A entrada da guitarrista Jessica Falchi (ex-Crypta) agregou ainda mais virtude ao quinteto, demonstrando uma pegada visceral e uma adaptação perfeita à proposta do Korzus. O show figura facilmente entre os três melhores do dia. É exatamente desse tipo de energia que o Rock in Rio precisa!

Fotos / Setlist (Korzus)

Noturnall entrega show impactante com muita energia e reciprocidade do público – Foto: Marcella Soáres

Palco Supernova

Supercombo (★★★☆☆)

Calcado em grandes sucessos da carreira e em momentos polêmicos de forte teor político (cujos discursos inflamados do vocalista acabaram cortados na transmissão televisiva e geraram manifestações nas redes sociais), o Supercombo lotou o Palco Supernova. A atração mostrou-se a escolha ideal para o espaço, tanto pelo trocadilho no nome quanto por sua relevância no cenário do rock alternativo. Oriunda de Vitória, Espírito Santo, a banda preserva a essência do rock nacional ao apostar em letras em português, que casam perfeitamente com uma sonoridade de peso controlado e flertes pontuais do alternativo com o indie.

Divulgando o álbum mais recente, Caranguejo (2026), a linha de frente comandada por Leo Ramos e Carol Navarro segurou as pontas com maestria. O repertório equilibrou novidades e clássicos que passeiam por quase toda a discografia do grupo, incluindo “Maremotos”, “Farol”, “O Alfaiate”, “Piseiro Black Sabbath” e a icônica “Todo Dia é Dia de Comemorar”. O saldo final foi positivo, saciando os fãs e reiterando a consistência que a banda já havia demonstrado em edições anteriores do festival.

Fotos / Setlist (Supercombo)

New Dance Order

James Hype (★★★★☆)

O DJ e produtor inglês James Hype consolidou-se como uma das grandes surpresas do palco de música eletrônica, conquistando o público na madrugada de sábado, mesmo em um dia majoritariamente dedicado ao heavy metal. Quem passava por ali na hora da saída do Palco Mundo, ou mesmo quem buscava apenas um instante para relaxar, simplesmente não conseguiu ignorar a atmosfera vibrante gerada por seus mashups criativos e sua pegada altamente dançante.

Para quem queria curtir uma balada ao ar livre cercado por pessoas vestidas de preto, a experiência ganhou contornos de uma autêntica e enérgica (ainda que sem intenção) festa gótica.

Fotos (James Hype)

Palco Sunset

Black Pantera convida Nervosa (★★★☆☆)

Sob uma chuva torrencial, os mineiros do Black Pantera confirmaram o porquê de serem sinônimo de apresentações impactantes, atraindo um público impressionante que lotou o Palco Sunset para testemunhar o encontro com a Nervosa. Com um punch formidável para um power trio, o peso da banda é latente e se consolidou como mais um grande expoente do thrash metal nacional, a despeito de sua trajetória relativamente recente. Embora o discurso político do grupo seja contundente e cause quase o mesmo impacto de sua musicalidade, a força das composições fala por si, com destaque para “Obsoleto” e “Tradução” — esta última enriquecida pela aparição da mãe dos irmãos Gama no telão.

A entrada da guitarrista e vocalista Prika Amaral elevou ainda mais a voltagem do show durante “Serotonina”. Logo em seguida, o restante da Nervosa juntou-se ao trio para executar faixas do repertório da banda paulistana, como a brutal “Endless Ambition”. Um dos momentos mais emblemáticos da apresentação ocorreu quando, a pedido do frontman Charles Gama, abriu-se uma roda de mosh só para as mulheres. O show ainda reservou espaço para uma releitura de “Obrigado Não”, clássico de Rita Lee. Pelo visto, o thrash metal está mais vivo e em alta do que nunca no Brasil!

Fotos / Setlist (Black Pantera convida Nervosa)

A banda Supercombo enfatizou músicas do lançamento mais recente em show lotado – Foto: Diego Padilha

Poppy (★★☆☆☆)

Há artistas cuja força e sonoridade das gravações em estúdio não se traduzem bem para as apresentações ao vivo e, a julgar pelo show executado no Sunset, este parece ser o caso da Poppy. Ainda que a cantora estadunidense tenha boas canções (de certa maneira originais ao misturar melodias pop, j-rock e nu/groove metal com forte influência de música eletrônica), a proposta perde peso, impacto e o refinamento das guitarras no palco. Essa fusão pode ser observada com mais clareza nos hits “Scary Mask” e “Concrete”.

O repertório demonstra que a artista não tem receio de experimentar harmonias diferentes, evitando zonas de conforto ou o apego ao que já funciona no quesito comercial, o que é um ponto a se elogiar. Contudo, apesar de o público ter comparecido em massa para conferir a estreia de Poppy no festival e ter se esforçado para ser o mais recíproco possível, as músicas interessantes não foram suficientes para elevar o nível do espetáculo.

Além da pouca interação com os brasileiros (restringindo-se a pedir mosh), ela valeu-se do uso excessivo de playbacks, samples e pré-gravações. A estratégia buscou manter o som coeso e limpo, mas cobrou o preço de uma apresentação menos orgânica. Para completar, a banda de apoio não transmitiu personalidade, e o uso de máscaras não ajudou nesse aspecto. Embora a estética visual, os figurinos e a produção de palco complementem bem o estilo da artista, a proposta funcionaria melhor em um ambiente fechado e intimista.

Os destaques positivos ficaram para a ótima “Public Domain” e o curioso cover de “V.A.N.”, faixa lançada em parceria com o Bad Omens (banda que tocaria na sequência). Outro momento que chamou a atenção foi parte da plateia puxando uma “remada viking” durante a música “Vital”. Poppy é inegavelmente versátil, tanto no quesito vocal quanto em suas composições, mas o show em si deixou a desejar.

Bad Omens (★★★★☆)

Outro artista estreante no festival, o Bad Omens entregou seu metalcore de forma diferenciada. Buscando focar nas composições e mantendo uma atmosfera melancólica (quase depressiva em certos momentos devido ao vocal emotivo de Noah Sebastian, a grande estrela do grupo), o show atraiu um grande público que se envolveu do início ao fim. O som estava melhor do que na atração anterior, apresentando mais definição e uma execução mais orgânica. Além disso, o jogo de iluminação valorizou bastante a performance, enquanto a pirotecnia constante garantiu um impacto visual extra.

Sendo uma banda relativamente nova, com pouco mais de uma década de existência e três álbuns de estúdio na bagagem, eles focaram seu repertório na fase mais recente. O setlist trouxe faixas do bem-recebido The Death of Peace of Mind (2022) e do potente EP Left For Good (2025). A resposta da plateia foi positiva, surpreendendo quem ainda não conhecia o som dos caras e empolgando os que já eram fãs confessionais. A chuva fina ajudou a ditar o clima intimista de músicas como “Specter”, “Nowhere to Go” e “What It Cost”. Os grandes destaques da apresentação ficaram por conta das ótimas “Like a Villain” e “Just Pretend”.

A despedida emblemática do Sepultura após a participação em nove edições consecutivas – Foto: Fernanda Lima

Palco Mundo

Sepultura (★★★★☆)

Um dos pilares do heavy metal brasileiro e mundial, o Sepultura sempre se fez presente no festival. Participando de todas as edições com exceção da primeira (1985) — e chegando a se apresentar em dois dias diferentes na edição de 2013 —, a banda construiu uma parceria com o evento que percorre quase toda a sua trajetória. Por isso, em sua turnê de despedida, o show no Rock in Rio gerou grandes expectativas, correspondidas por um setlist bem diferente do que vinha sendo tocado ao longo do ano.

A chuva insistia em lavar a alma dos metaleiros, que lotaram o espaço e não arredaram o pé do Palco Mundo, ansiosos pelo que seria o último show do quarteto em solo carioca. Contudo, após faixas como “Against”, “All Souls Rising”, “Means to an End” e “Phantom Self”, já na metade da apresentação, o público percebeu a ausência de músicas da era dos irmãos Cavalera. Trata-se de um movimento ousado, especialmente por se tratar de um show de encerramento de atividades.

Por um lado, a escolha valoriza o trabalho de Derrick Green, que entrou no grupo em 1997 e sempre se mostrou consistente em estúdio e ao vivo, mantendo viva a chama de uma banda que poderia ter acabado após o rompimento da formação clássica. Por outro lado, o fã naturalmente espera clássicos como “Roots Bloody Roots”, “Refuse/Resist”, “Territory” e “Arise”, que definiram a identidade do grupo. Pensando no público que nunca havia assistido à banda ao vivo, teria sido crucial apresentar um apanhado completo da discografia, equilibrando o peso dos grandes clássicos e respeitando ambas as fases históricas. Um repertório focado exclusivamente na era moderna funcionaria melhor em uma turnê paralela ou em shows extras. Como o Rock in Rio foi um dos responsáveis por projetar o nome do grupo mundialmente, seria justo presentear a plateia com faixas de todas as épocas.

Para quem já havia assistido a diversos shows do grupo, a apresentação foi uma oportunidade única de conferir canções raramente executadas, além de novidades como as do recente The Cloud of Unknowing (2026). Todas as quatro músicas do EP foram tocadas, com destaque para a excelente “Beyond the Dream”, uma balada melancólica na qual Derrick explora vocais limpos e Andreas Kisser entrega um de seus solos de guitarra mais bonitos. Vale ressaltar também o entrosamento impecável da cozinha, comandada pelo veterano baixista Paulo Xisto e pelo jovem baterista Greyson Nekrutman.

Encerrando a apresentação com a poderosa “Sepulnation”, os headbangers saíram realizados por testemunharem um show icônico que celebrou 40 anos de carreira e fechou o ciclo de um verdadeiro orgulho nacional. O Sepultura se despede deixando um legado inestimável para a história da música.

Fotos / Setlist (Sepultura)

MGK (★★☆☆☆)

O cantor MGK (anteriormente Machine Gun Kelly), originalmente moldado na cena de rap de Cleveland, resolveu debandar de seu gênero de início de carreira ao longo dos anos. Gradualmente, o artista buscou espaço no pop-punk e no rock alternativo, consolidando sua nova fase a partir de 2020 com álbuns de boa repercussão. No festival, a tarefa de se apresentar no dia mais pesado do evento era clara. Ele enfrentou o desafio de peito aberto, tentando interagir com o público a qualquer custo e comunicando-se até mesmo em português ao pedir mais animação e reciprocidade.

Ainda que sua postura tenha sido digna, parecia que grande parte da plateia realmente não o conhecia ou não aceitou bem sua presença na escalação daquela data. Demonstrando certa falta de sintonia com o artista, o público dispersou diversas vezes em conversas paralelas e ignorou alguns pedidos enfáticos do cantor; como os gritos de “Vambora!” durante a performance de “I Think I’m Okay”.

Apesar disso, é preciso respeitar o esforço do músico para tentar conquistar, durante uma hora de show, uma plateia que aguardava ansiosamente pelas atrações principais. Para isso, ele contou com uma excelente banda de apoio, composta por instrumentistas de primeira linha (incluindo a talentosa guitarrista Sophie Lloyd), além de uma produção de palco com iluminação diferenciada.

O que talvez tenha pesado contra foi a falta de um direcionamento mais linear em seu repertório. Ao misturar estilos distintos percorridos em sua discografia, o setlist soou confuso, alternando de forma abrupta faixas como “Till I Die”, “Bloody Valentine”, “Concert for Aliens”, “Papercuts” e a recente “Vampire Diaries”. Também não se pode ignorar a pouca extensão vocal do cantor, que optou por tons mais graves em um gênero que costuma exigir notas mais agudas nas melodias. Em suma, as composições trazem boas ideias e não são ruins em essência, mas talvez aquele não tenha sido o melhor dia ou palco para a sua proposta.

Fotos / Setlist (MGK)

O Bring Me The Horizon aliou tecnologia e performance em show memorável – Foto: Lais Moss

Bring Me The Horizon (★★★★★)

Se existisse um curso sobre como fazer um show moderno e divertido para conquistar tanto a Geração Z quanto os Millennials, os britânicos do Bring Me The Horizon ficariam bilionários. Sem poupar esforços, a banda entregou uma performance inacreditável com ares de headliner. O espetáculo teve como alicerce o uso brilhante dos telões do Palco Mundo (por meio da impressionante imersão visual do Project Dreamseeker), explorados de uma maneira que nenhuma outra atração conseguiu ao longo do festival. Longe de exibir apenas imagens e efeitos genéricos, a produção construiu uma narrativa cativante e humorística, repleta de introduções de personagens, interações diretas entre a realidade e o virtual, forte conexão com a cultura gamer e uma iluminação impecável. Eles jogaram para vencer e ganharam com folga.

A entrega total do carismático vocalista Oliver Sykes também foi um dos pontos altos da apresentação. Totalmente conectado com a plateia, ele chegou a convidar um fã para subir ao palco e dividir os vocais na pesada “Pray for Plagues” (que exala o death metal do começo da carreira da banda). O escolhido mandou muito bem. Em todas as músicas, o público respondeu com entusiasmo: cantou junto, pulou e abriu grandes rodas de mosh, criando uma atmosfera digna de gravação de DVD oficial. Independentemente de ser fã ou não da banda, era impossível ficar apático diante do alto nível de entretenimento proporcionado.

O metalcore do grupo ganhou ainda mais força com esse trabalho conjunto entre estética e desempenho, equilibrando peso e melodia com maestria. Faixas como “Happy Song”, “Teardrops”, a brutal “Dehumanized” (lançada na regravação comemorativa do primeiro álbum) e “Shadow Moses” foram grandes destaques. Um dos maiores sucessos do BMTH, “Throne” levantou de vez a arena, enquanto o vocalista interagia vestindo a bandeira do Brasil. Como reside em São Paulo por ser casado com uma brasileira, Oliver divertiu o público nos intervalos com frases descontraídas como “Tenho CPF” e “Eu uso Pix”.

Priorizando discos consagrados de sua transição sonora, como Sempiternal (2013) e That’s the Spirit (2015), o repertório foi bem balanceado e agradou em cheio aos presentes. Indubitavelmente um dos melhores shows dos primeiros dias do festival, aclamado tanto pelo público quanto pela imprensa especializada, o Bring Me The Horizon fechou sua vitoriosa apresentação com o hit “Can You Feel My Heart”, sob o comando de Oliver pedindo para a galera agachar e saltar no icônico riff inicial. Um verdadeiro espetáculo!

Fotos / Setlist (Bring Me The Horizon)

Em clima morno, o Avenged Sevenfold apresenta repertório democrático que dividiu opiniões – Foto: Alex Woloch

Avenged Sevenfold (★★☆☆☆)

Após a performance aniquiladora da atração anterior, seria uma tarefa difícil para o Avenged Sevenfold surpreender positivamente o público como o grande headliner da noite, ainda mais pela segunda vez consecutiva, já que também fechou em 2024.

O quinteto americano até conseguiu causar impacto, mas não exatamente pelos melhores motivos. A apresentação começou com um atraso de 30 minutos provocado por problemas técnicos nos telões, o que inevitavelmente testou a paciência da plateia que aguardava o encerramento do Palco Mundo sob uma hora avançada. Para tentar reconquistar o público de imediato, a banda abriu os trabalhos com o hit “Nightmare”, emendado por “Afterlife”, indicando que o setlist traria algumas novidades em relação à última passagem dos músicos pelo país.

Embora a qualidade técnica do som estivesse superior à da edição passada, isso não foi suficiente para dissipar o clima morno que se arrastou por quase uma hora e meia de show. O ritmo da apresentação foi prejudicado pelo uso extremamente econômico dos telões (que beirou o minimalismo excessivo), por escolhas duvidosas no repertório (priorizando baladas longas e andamentos cadenciados) e por uma performance vocal instável do frontman M. Shadows, que demonstrou dificuldades em passagens mais exigentes.

Por outro lado, o repertório mostrou-se democrático ao trazer pelo menos uma representação de quase todos os álbuns da carreira do grupo. As únicas exceções foram o disco de estreia, Sounding the Seventh Trumpet (2001), e o polêmico EP experimental Statica (2026), cujas faixas eletrônicas foram duramente criticadas pelos fãs e acabaram vetadas do show. O espetáculo encontrou fôlego em momentos pontuais com clássicos como “Bat Country”, “Afterlife” e a teatral “A Little Piece of Heaven”, apostando em uma pirotecnia intensa que, contudo, por vezes pareceu exagerada diante da falta de brilho da performance geral. Antes de iniciar “Seize the Day”, M. Shadows comentou sobre a negatividade que costuma ler no X (antigo Twitter) e pediu para que a plateia valorizasse e apoiasse as bandas mais novas do cenário.

Nos raros momentos em que a produção visual entregou algo mais elaborado, faixas como “Buried Alive” se destacaram pelas artes perfeitamente alinhadas à sua temática lírica. Já o hino “Hail to the King” foi emoldurado por sinalizadores acesos pelo público, que se fundiram ao fogo exibido nos telões. Atendendo aos antigos pedidos dos fãs brasileiros, o grupo também incluiu “M.I.A.” no setlist, recompensando a resiliência de quem permaneceu na pista apesar do cansaço e da chuva fina. O encerramento, no entanto, deu-se com “Cosmic”, uma longa e atmosférica balada que acabou frustrando quem esperava um fechamento mais enérgico, resultando em uma evasão perceptível de parte do público antes dos acordes finais. Fica a sensação de que o Avenged Sevenfold tinha potencial para entregar um espetáculo muito superior.

Apesar dos altos e baixos da atração final, o dia de rock no festival foi concluído com saldo bem legal. As performances marcantes de outras bandas garantiram a realização da maior parte dos presentes, que retornam para casa com momentos especiais guardados na memória — o tipo de experiência que apenas um festival desse porte é capaz de proporcionar. Viva a Cidade do Rock!

Fotos / Setlist (Avenged Sevenfold)

Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Approach Comunicação pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock. Nos vemos em 2028!


Confira as fotos gerais do segundo dia (05/09) no Rock in Rio 2026:


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