Texto e Edição: Gustavo Franchini

Para o fã de heavy metal, a celebração de 50 anos de carreira de uma das bandas mais emblemáticas da história do gênero é um momento único. Tratando-se do Iron Maiden, referência mundial e detentor de uma relação afetiva histórica com o Brasil, a expectativa para o espetáculo não era menor do que a de uma final de Copa do Mundo ou disputa de medalha de ouro olímpica. A Run For Your Lives World Tour tornou a atmosfera ainda mais impactante ao resgatar clássicos que muitos veteranos sonhavam rever no palco. Entre as surpresas, destaca-se uma faixa ausente dos repertórios há 38 anos e inédita em palcos brasileiros, cuja execução será detalhada ao longo desta resenha.
Alter Bridge
A noite de 25 de outubro em São Paulo foi marcada por chuvas intermitentes ao longo do dia, que felizmente cessaram antes da apresentação de abertura do Alter Bridge. Os americanos vêm chamando a atenção há anos pela qualidade técnica e criatividade na mistura de metal alternativo, hard rock, rock progressivo e post-grunge. A escolha foi acertada para esta perna da turnê, já que o grupo possui fãs devotos no país. O que começou há duas décadas como um projeto do guitarrista Mark Tremonti e de ex-membros do Creed com o vocalista e guitarrista Myles Kennedy transformou-se em algo muito maior, movido pela essência das composições e longe de apelos puramente comerciais.
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Vale ressaltar que o repertório completo da banda costuma incluir baladas essenciais como “Watch Over You” (presente em shows recentes pela América do Sul), mas o limite de tempo no Nubank Parque forçou um setlist enxuto de menos de uma hora. Diante disso, o quarteto apostou em canções pesadas para apresentar o máximo de sua proposta ao estádio lotado. O ponto positivo é que a performance sólida prendeu facilmente a atenção do público e atraiu quem ainda não conhecia o som orgânico do grupo. Sem deixar o ritmo cair e mantendo uma postura focada na música, o Alter Bridge sustentou sua excelente reputação e deixou as portas abertas para futuros shows solo no país.

Foto: Stephan Solon
Embora a acústica do estádio e os problemas técnicos de equalização tenham comprometido o peso das bases poderosas do Alter Bridge, a banda entregou uma performance impecável. O som menos vibrante e a produção visual minimalista — limitada a um pano de fundo e iluminação básica — criaram uma atmosfera um pouco mais morna, evidenciando que o estilo introspectivo do grupo funciona melhor em ambientes fechados. Apesar disso, Myles Kennedy cantou com extrema segurança e carga emotiva, respaldado pela precisão da guitarra de Mark Tremonti e pela cozinha entrosada do baixista Brian Marshall e do baterista Scott Phillips. Essa formação, inalterada desde a estreia em 2004, é o segredo de tamanha consistência técnica.
Do novo álbum lançado pela banda, apenas a cadenciada “Silent Divide” foi selecionada, sintetizando bem a atual sonoridade do quarteto. Contudo, foi a sequência do aclamado álbum Fortress (2013), com a trinca “Addicted to Pain”, “Cry of Achilles” e a faixa-título, que de fato inflamou o público e gerou uma forte reciprocidade, impulsionada pelo carisma e pela técnica impressionante de Myles. “Silver Tongue” e o hit “Metalingus” mantiveram a energia em alta, abrindo espaço para os primeiros moshes na pista.
O ápice da apresentação, no entanto, veio com a monumental “Blackbird”. Com quase oito minutos de duração repletos de nuances estruturais e profundidade emocional, a música transformou o ambiente do estádio em algo transcendental, destacando um dos solos mais inspirados da carreira de Tremonti, repleto de feeling e bom gosto. A melódica “Isolation” encerrou o show com saldo amplamente positivo, deixando no público um ‘gostinho de quero mais’ e a expectativa de um retorno breve ao nosso país.
Iron Maiden
Historicamente conhecidos por suas peripécias cenográficas, o Iron Maiden inovou nesta turnê ao incorporar tecnologia de ponta através de telões de LED de alta definição. Embora a escolha pudesse soar estranha à primeira vista para os fãs mais tradicionais, acostumados aos clássicos panos de fundo estáticos e montagens puramente físicas do mascote Eddie, a mudança na prática se provou um grande acerto. Além de garantir uniformidade técnica e estrutural em todos os países da turnê, os recursos eletrônicos proporcionaram uma imersão visual inédita, alinhada às harmonias e temas das letras, abrindo espaço até para interações inéditas entre a banda e as projeções.
Minutos antes do horário previsto, o PA trouxe a tradicional “Doctor Doctor” (UFO), utilizada como prólogo dos shows do grupo há décadas em referência às influências do baixista Steve Harris. Logo em seguida, a introdução “The Ides of March” anunciou o resgate da era do saudoso Paul Di’Anno. Com o telão exibindo um beco escuro de Paris, a banda deu início à incrível “Murders in the Rue Morgue”, tocada ao vivo pela primeira vez no Brasil. Sob a ótica do ritmo do show, a dinâmica teria funcionado melhor se o setlist tivesse invertido a ordem desta faixa com “Wrathchild” (respeitando a transição clássica da introdução), aproveitando o apelo imediato e a energia mais direta para incendiar o público logo de cara.
A execução dessas faixas traz um contraste interessante: a voz ríspida de Di’Anno ditava a atmosfera urbana e flertava com o punk rock característico do início da carreira do grupo. Na versão atual, embora a performance de Bruce Dickinson seja impecável, seu tom operístico e melódico altera o clima original da canção, tornando-a menos crua, ainda que tenha sido um dos pontos altos da noite. A sequência com “Wrathchild”, por sua vez, engajou definitivamente o estádio lotado, que acompanhou o refrão em uníssono — uma música que se beneficia muito do alcance vocal de Bruce. O início do show foi coroado com “Killers”, outra estreia em palcos brasileiros que arrepiou o público pela nostalgia, destacando a linha de baixo emblemática de Steve Harris que define a identidade imortal do Iron Maiden.

Foto: Stephan Solon
O festival de homenagens à era Paul Di’Anno continuou com a esplêndida “Phantom of the Opera”. Uma das composições mais complexas do catálogo do grupo, a faixa destaca-se por suas constantes mudanças de andamento e ricas texturas progressivas. Embora não seja presença garantida em todas as turnês (uma escolha compreensível diante de uma discografia tão vasta), sua execução em São Paulo provocou uma das reações mais entusiasmadas da noite. Logo em seguida, a icônica introdução narrativa anunciou “The Number of the Beast”. O riff avassalador evidenciou como a configuração de três guitarras confere um peso imponente e preenche o som do estádio com maestria.
O momento mais aguardado e emocionante da noite ocorreu quando Bruce Dickinson discursou para o público e mencionou que “é importante sonhar”. A deixa bastou para que o estádio identificasse “Infinite Dreams”, desencadeando completa êxtase entre os 50 mil presentes. Faixa do aclamado álbum Seventh Son of a Seventh Son (1988), ela não era tocada ao vivo desde aquela época e traz uma das linhas vocais mais exigentes da carreira da banda. O arranjo exige fôlego contínuo e notas agudas sustentadas, sem intervalos para descanso. Dickinson não apenas encarou o desafio com maestria, mas impressionou pela potência vocal e vigor físico aos 68 anos, reafirmando sua posição incontestável como um dos maiores frontmen da história do heavy metal.
A temática egípcia deixa claro que “Powerslave” seria a próxima no setlist, uma daquelas composições que fazem o fã perceber por que essa é considerada a era de ouro da banda. Tudo funciona, contagia e faz o headbanger se sentir realizado simplesmente por ver que suas lendas continuam na ativa, oferecendo a oportunidade de testemunhar esse momento histórico mais uma vez.
Contudo, o show também traz um choque de realidade com a presença de Simon Dawson — baterista do British Lion, projeto paralelo de Steve Harris —, que assumiu as baquetas após Nicko McBrain se afastar das turnês por motivos de saúde. Embora Dawson seja um músico competente, principalmente nas viradas, sua execução nas bases de várias canções soa um tanto quanto contida. Fica a impressão de que ele adaptou o repertório clássico ao seu próprio estilo. Ocorre que o catálogo do Iron Maiden não é maleável a esse tipo de transição; exige uma reprodução fiel ao que foi originalmente gravado, especialmente considerando que Nicko sempre imprimiu uma personalidade absurda, dominando os bumbos e os contratempos nas quebras de compasso.
A ausência de McBrain foi sentida por grande parte do público ao longo da noite, levantando discussões sobre se uma escolha mais técnica e alinhada à escola do antigo baterista não teria sido mais adequada. Ainda que Simon segure o ritmo da apresentação com profissionalismo, seu encaixe técnico divide opiniões entre os puristas. Pela forte ligação de confiança com Harris após mais de uma década tocando juntos, a formação deve seguir firme e estável. No fim das contas, desde que essa mudança garanta a longevidade do Iron Maiden nos palcos, a comunidade do metal apoia o espetáculo.
O riff avassalador de “2 Minutes to Midnight” incendiou o estádio, consolidando-se como um dos momentos mais enérgicos da noite. Na pista, a catarse foi completa: fãs celebrando, cantando a plenos pulmões e dividindo a emoção com amigos e familiares. No palco, a icônica trinca de guitarras evidenciou o papel de cada integrante. Dave Murray funcionou como o alicerce das bases e das harmonias (embora tenha cometido pequenos deslizes e optado pelo improviso em boa parte dos solos); Adrian Smith destilou precisão técnica e feeling em suas linhas melódicas; enquanto Janick Gers, com sua habitual postura performática e descontraída, trouxe dinamismo visual ao show, embora um maior equilíbrio técnico pudesse valorizar ainda mais sua contribuição estritamente musical.
A épica “Rime of the Ancient Mariner” foi, sem dúvidas, o grande acerto do repertório. A faixa sintetiza a pura essência do Iron Maiden, funcionando quase como um portfólio da identidade sonora do grupo, onde cada instrumento e linha vocal ganham protagonismo. Diferente de turnês passadas, a atmosfera ganhou contornos cinematográficos graças aos novos telões de LED, que ilustraram a narrativa da letra e geraram uma imersão inédita. A inovação tecnológica provou seu valor e mostrou que, se integrada às clássicas estruturas físicas da banda, representa o melhor dos dois mundos. O arranjo também reforçou o gênio criativo de Steve Harris; é impressionante testemunhar a segurança com que o baixista executa suas linhas com fidelidade cirúrgica se comparado às gravações em estúdio. Certamente, o ápice da apresentação.
Bastaram dois segundos de contagem na bateria para que o público reconhecesse e celebrasse o clássico absoluto “Run to the Hills”. Cantada em uníssono, a faixa serviu como um respiro estratégico para Bruce Dickinson, que conduziu a plateia para assumir os versos e refrões. Uma condução compreensível e inteligente, considerando as exigências vocais de um show com quase duas horas de duração. Hidratando-se constantemente no palco, Dickinson entregou uma performance vocal elogiável, sendo ovacionado pelo estádio.
Na sequência, a imponente “Seventh Son of a Seventh Son” manteve o nível técnico elevado, com o telão reproduzindo a arte conceitual do álbum em animações sutis que encantaram os fãs veteranos. Foi nesse momento que o sistema de som do Nubank Parque finalmente encontrou o equilíbrio ideal, conferindo mais corpo, volume e punch às guitarras. Embora tardio, o ajuste na mixagem fez justiça à grandiosidade do espetáculo, provando que o heavy metal exige peso e potência na medida certa.

Foto: Stephan Solon
Há clássicos indispensáveis, e “The Trooper” certamente é um deles. Conduzida por sua famosa cavalgada de baixo, a faixa transmite uma sensação de movimento constante, evocando a marcha de um exército. Embora Simon Dawson tenha oscilado em alguns trechos, a empolgação natural do público e a solidez das guitarras, do baixo e do vocal compensaram tais estranhezas. Se falamos de preciosidades, “Hallowed Be Thy Name” elevou o patamar da noite. Uma das composições que melhor simbolizam a força do Iron Maiden, a música ganhou contornos teatrais nos telões: Bruce Dickinson interpretou o condenado à morte e, em perfeita sincronia visual, as projeções mostraram sua fuga das sombras e da forca, culminando com o vocalista exibindo a corda no palco para delírio do estádio. É essa capacidade de narrativa milimétrica que faz a banda ser tão cultuada.
O lendário mascote Eddie também foi um espetáculo à parte, surgindo em várias versões icônicas: como o soldado de “The Trooper” em seu tradicional duelo de espadas com Bruce, e como o psicopata de machado na mão em “Killers”. Na autointitulada “Iron Maiden”, Eddie surpreendeu a plateia ao emergir gigante no telão em sua identidade de prisioneiro — uma referência visual direta ao álbum Piece of Mind (1983). Essa capacidade de renovar o mascote a cada turnê reafirma por que a identidade visual do grupo continua tão forte e divertida.
O bis abriu com o icônico discurso de Winston Churchill, seguido pelo riff avassalador de “Aces High”, que trouxe Bruce caracterizado com chapéu e óculos de aviador. Logo depois, o hit máximo “Fear of the Dark” transformou o estádio em um mar de luzes de celulares, proporcionando um dos momentos mais belos da noite, cantado em uníssono por múltiplas gerações. Diante do anúncio da última música, restou apenas uma ressalva ao repertório: a ausência de faixas do álbum No Prayer for the Dying (1990). Embora seja um disco comercialmente menos popular e por vezes injustiçado, sua presença teria enriquecido a proposta histórica da turnê.
O encerramento triunfal ficou por conta de “Wasted Years”. Consolidada nos setlists recentes, a canção garantiu um clima festivo graças ao refrão marcante e ao riff cativante de Adrian Smith — a escolha perfeita para coroar um repertório que equilibrou nostalgia, emoção e hinos imortais. Concluir a noite sabendo que a espera pela próxima turnê recomeça traz melancolia, mas também o alento de que a chama do heavy metal segue acesa com maestria. A dispersão do público ocorreu de forma pacífica e respeitosa sob o som de Monty Python ecoando pelos alto-falantes, lembrando a todos de sempre olhar o lado bom da vida. Up the Irons!
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Midiorama e Move Concerts pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.

Foto: Stephan Solon
Veja a galeria de fotos do show (Iron Maiden/ SP):




















* Nota do Editor: Fotos que contemplam as apresentações dos dias 25 e 27 de outubro.
Veja a galeria de fotos do show (Alter Bridge/ SP):











* Nota do Editor: Fotos que contemplam as apresentações dos dias 25 e 27 de outubro.



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