Rock in Rio 2026 – Dia 04/09: primeiro dia do festival celebrou o rock de maneira plural com destaque para a organização e público animado

A edição deste ano entregou novas atrações e o público correu atrás de ativações, enquanto os shows definiam diversas vertentes do rock

Texto, revisão e edição: Gustavo Franchini

Após 40 anos de história, o Rock in Rio chega à sua décima edição em 2026 provando que ainda consegue surpreender. Com uma organização cada vez mais eficiente, o festival reduziu os problemas do passado e trouxe melhorias de forte impacto em segurança, oferta de água gratuita, quantidade de banheiros e variedade de alimentação. Entre as novidades desta edição, o grande destaque foi o Ecco, um impressionante espetáculo de luzes.

Assim como no ano passado, o line-up sofreu críticas nas redes sociais por escolhas que dividiram opiniões — como a inclusão de k-pop, funk e rap, gêneros que fogem do estilo histórico do evento. A repetição de bandas e a escalação do Avenged Sevenfold como headliner por duas edições seguidas também geraram debate. Mesmo assim, o resultado final consagrou o sucesso absoluto da marca: ingressos esgotados rapidamente, Cidade do Rock lotada e um público vibrante.

O primeiro dia do festival priorizou as vertentes do rock, passando pelo hard rock, alternativo, pop rock, emocore, rock nacional e punk rock, com bandas de peso que entregaram shows memoráveis. Fora dos palcos, quem queria garantir os brindes das ativações de marca precisou chegar cedo, já que longas filas se formaram logo após a abertura dos portões. O público também pôde aproveitar espaços de dança, socialização, karaokês em pubs e apresentações de músicos estreantes que tiveram a honra de mostrar seu trabalho para uma plateia massiva e recíproca.

A grande beleza do Rock in Rio é justamente esta: embora a música seja o foco principal (distribuída em sete palcos com propostas únicas), ele vai muito além de um festival. É uma imersão que reúne arte, conecta diferentes gerações e abraça a diversidade em sua forma mais pura.

A nossa equipe fez a cobertura das bandas Black Jack, Venere Vai Venus, Diogo Defante, Detonautas convida Biquíni, Hot Milk, Capital Inicial convida Dado Villa Lobos, The Hives, Rise Against e Foo Fighters.

Confira vídeos dos shows na seção ‘Destaques’ do Instagram

Highway Stage

Black Jack (★★★★☆)

Quem passou pelo charmoso palco da Rota 85 pôde ouvir, já de longe, um som potente, técnico e contagiante: era a banda paulistana Black Jack. Em sua segunda participação no festival, o grupo demonstrou um repertório impecável de hard e classic rock, com destaque para a voz do frontman Rafael Zanco, que esbanjou controle e personalidade tanto nas músicas autorais quanto nos covers.

Formada por músicos competentes e refinados, a banda caminha a passos largos para um reconhecimento ainda maior. Foi um grande prazer conferir novamente sua apresentação, mesmo que por alguns instantes. O som magnético atraía os olhares e ouvidos curiosos de quem passava pela região, provando que é impossível passar despercebido quando se faz música de qualidade. Que venham muitas outras edições do festival com a presença deles!

Fotos (Black Jack)

Palco Supernova

Venere Vai Venus (★★★☆☆)

Mesmo sendo um grupo relativamente novo, o Venere Vai Venus é outra banda paulistana que vem ganhando destaque. Com uma sonoridade alternativa misturada à MPB, o grupo já marcou presença em eventos como o Festival João Rock e acumula milhões de reproduções nas plataformas digitais — o que garantiu um público fiel para conferir sua estreia no Rock in Rio.

Canções como “Ego”, “Anjos” e “Ares”, presentes no único álbum de estúdio da banda, despertaram boas reações da plateia, embora tenha faltado um pouco mais de energia e interação com o público. Com uma postura mais introspectiva, iluminação baixa e produção de palco minimalista, a apresentação dividiu impressões: enquanto os que já conheciam seu som apreciaram a intensidade das músicas, os curiosos que os assistiam pela primeira vez não se empolgaram tanto. O resultado foi um show direto ao ponto, mas que pecou pela falta de ousadia e de uma postura mais marcante.

Fotos / Setlist (Venere Vai Venus)

Diogo Defante (★☆☆☆☆)

É compreensível que o cenário atual do humor brasileiro sinta carência de novos nomes que misturem comédia e música. Especialmente quando a referência são ícones como os saudosos Mamonas Assassinas, a sátira impecável do Massacration, o nonsense bem sacado de Rogério Skylab ou, guardadas as devidas proporções, a acidez divertida do Raimundos.

Contudo, enquanto o país exporta excelentes comediantes, outros parecem ser “empurrados” ao público, como é o caso de Diogo Defante. Ele não é de todo ruim como artista; tem influências claras dos nomes citados (e provavelmente do canal Pepa Filmes), além de ter alcançado ótima repercussão na CazéTV durante a Copa do Mundo e acumulado vídeos virais nas redes sociais.

O problema surge quando ele sai da zona de conforto do stand-up e assume o palco de um grande festival de música. Nesse momento, abre-se espaço para críticas técnicas. Nem sua experiência prévia com bandas ou seu desejo de flertar com um rock (por vezes inspirado) parecem suficientes para entregar um resultado de qualidade.

O que se viu no palco Supernova — que estava lotado no horário de pico, chegando a esvaziar o show do Hot Milk no Sunset — foi uma performance musical de difícil digestão para quem tem o mínimo de exigência. Com piadas forçadas, previsíveis e uma quase total ausência de técnica vocal (sendo difícil distinguir o que era piada e o que era tentativa real de cantar), o show entregou letras fracas, sem o charme ou o timing de verdadeiros comediantes. Nem mesmo a presença de uma banda de apoio com músicos competentes salvou faixas autorais como “Padeiro”, “Humanoide” e “Frutífero”, ou os covers de “Aerials” (System of a Down) e “Like a Stone” (Audioslave).

A apresentação só não recebe uma nota zero porque Defante, de fato, conquistou boa parte da plateia. Arrancou risadas de muitos que sabiam as letras, demonstraram uma empolgação surpreendente e foram recíprocos nos aplausos e interações. Além disso, é preciso reconhecer a coragem do artista em se colocar em uma situação sabendo que estaria exposto a duras críticas. Fica a torcida para que, em uma próxima oportunidade, ele se apresente mais amadurecido tanto na comédia quanto na música. Ainda assim, com todo o respeito, foi disparado o pior show do dia.

Fotos / Setlist (Diogo Defante)

A dupla Hot Milk surpreende mesmo com adversidades e conquista público – Foto: Lais Moss

Palco Sunset

Detonautas convida Biquíni (★★★★☆)

Realmente um encontro de gerações. Enquanto ambas as bandas flertam com o pop rock nacional, o Biquíni (Cavadão, no original) tem 40 anos de estrada e muitos clássicos que atravessaram diversas faixas etárias. Já o Detonautas, que puxa suas músicas mais para o apelo comercial das rádios, devido à simplicidade da parte instrumental/vocal, se mantém relevante mesmo nos dias atuais.

Grande parte do show foi dedicado à apresentação de Tico Santa Cruz & Cia, que desta vez (felizmente) não se apoiou em discursos políticos e proferiu palavras positivas para uma plateia avida por músicas dançantes. E foi o que receberam. Sucessos como “Só Por Hoje”, “Quando o Sol Se For” e “Olhos Certos” empolgaram demais os que ainda estavam dispostos no começo de um dia do festival, enquanto o vocalista Bruno Gouveia só entrou para algumas músicas, dentre elas “Chove Chuva” e “Vento Ventania”, o suficiente para uma calorosa recepção. “Outro Lugar” fecha com todos no palco e a certeza de que o Biquíni precisa voltar para um show solo na próxima edição.

Fotos / Setlist (Detonautas convida Biquíni)

Hot Milk (★★★★☆)

A dupla inglesa Hot Milk, formada por Han Mee e Jim Shaw em 2018, aposta em um power pop incorpado e influências de música eletrônica/emocore, que já vem causando certo alarde mundo afora, mas o Brasil ainda não é território conquistado, algo claramente visto pela pouquíssima presença de público em seu show; ainda que em horário nobre. Devido ao compartilhamento de horário com o infame show de Diogo Defante (mas que ainda atrai bastante gente), o novato grupo teve que se contentar com o que tinha em mãos. E aproveitou bem disso!

Faixas mais pesadas como “90 Seconds to Midnight” e melodicamente grudentas como “Party On My Deathbed” surpreenderam os que não conheciam nada de sua carreira, em especial pela forte presença de palco da vocalista Han Mee, que a todo momento tentava levantar os poucos que estavam presentes ali no enorme espaço e interagia de diversas maneiras, demonstrando atitude, carisma e proximidade, chegando a cantar no meio da galera, incitando moshes e impulsionando vontade em todos.

Mesmo com as adversidades, que se somaram ao som que não estava ideal (mais baixo do que o normal, sem clareza de notas e peso na guitarra, praticamente só se ouvia a bateria e a voz), o ânimo se iluminou pela dedicação em fazer ‘uma limonada com apenas alguns limões’; no mínimo conquistou o respeito e admiração dos que foram recíprocos. Espero que o esforço renda frutos para uma futura apresentação completa no país quando já forem relevantes por aqui também.

Fotos / Setlist (Hot Milk)

Rise Against agita as rodas punk com som potente e animado – Foto: Victor Carvalho

Capital Inicial convida Dado Villa Lobos (★★☆☆☆)

Diferente do show do Detonautas com Biquíni, o encontro entre Capital Inicial e Dado Villa Lobos contou com um setlist muito maior e a presença do convidado desde a terceira música até o final, contudo o resultado final foi bem abaixo do esperado. Claro que é impossível ficar parado ao som de tantas músicas divertidas do Capital como “Quatro Vezes Você”, “Primeiros Erros” e “Natasha”, que sempre foram destaque em outras edições do festival. Para se ter uma noção, sem contar as edições internacionais do Rock in Rio, a banda é recordista de participações no evento com a façanha de só não ter participado em 1985. Além disso, o que não falta é nostalgia em músicas do Legião Urbana, como “Será”, “Geração Coca-Cola”, “Tempo Perdido” e “Que País É Esse?”.

Mas não é só de memória que vive um show, e parece que o tempo cobrou mesmo artistas experientes, como é o caso de Dinho, que praticamente não cantou as músicas. Digo, não no sentido literal. A dificuldade que ele enfrentava para conseguir alcançar o tom original de suas canções era visível (algumas estavam abaixo do tom, como “Natasha”, e mesmo assim ficaram esquisitas). Com rouquidão, trêmulo em melodias e se apoiando no público para acompanhar as letras (e mandando agudos aleatórios no final de certas canções), a celebração de 30 anos sem Renato Russo foi mais fria do que deveria, ainda mais pelo fato de Dado estar um pouco apático em cima do palco. Não tem como tirar o brilho das músicas por si só, porém o clima ficou mais desanimado do que o de costume, já que o Capital é conhecido pela verdadeira festa que sempre proporcionaram.

Os problemas técnicos do Sunset atrapalharam um pouco (abafado e intermitente), só que não são a razão para tal. Talvez ambos não estivessem em uma boa noite, ou a parte emocional do tributo pode ter afetado de alguma forma. O público certamente compareceu e ‘carregou o show’, lotando cada centímetro do lugar e cantando tudo possível, praticamente cantando a capella em alguns momentos, até pelo fato de o repertório ter sido excelente.

Fotos / Setlist (Capital Inicial convida Dado Villa Lobos)

Palco Mundo

The Hives (★★★☆☆)

Os suecos do The Hives apresentaram seu punk rock de garagem bem enérgico, direto ao ponto e recheado de humor. O frontman Pelle “Per” Almqvist não poupou um segundo do seu tempo no palco principal e, mesmo com tentativas constantes de falar em português (que no início gerou risadas e depois certo constrangimento pela ‘forçação de barra’), além de ter ido pro meio do público logo na segunda música, “Main Offender”, era bem claro que grande parte dos presentes não sabia cantar as letras e só estava tentando fazer parte da festa. E que festa!

Mesmo também com dois segundos de atraso no telão, nada parecia abalar o quinteto que pediu para todos fazerem barulho, bater palmas, pularem e os tratarem como verdadeiros reis (em referência a canção “Hooray Hooray Hooray”), na qual Per ficou parado por quase um minuto inteiro no meio do palco enquanto ouvia aplausos e “olê olá” dos brasileiros. Quem achava que não conhecia a banda, logo explodiu em alegria ao ouvir os riffs de “Hate to Say I Told You So”, hit máximo deles, no meio do repertório. Outros bons momentos se revelaram em “Tick Tick Boom” e “Legalize Living”.

Fotos / Setlist (The Hives)

Rise Against (★★★★☆)

Chegou a hora do hardcore melódico raiz e o show com o maior número de rodas punk (moshes) do primeiro dia do festival! O Rise Against demonstra sua revolta não só nas letras, mas na força de superação ao tocarem com instrumentos emprestados, já que o equipamento deles foi extraviado e não chegou a bagagem no Brasil. Talvez isso explique a entrada tímida dos americanos no palco, que logo se soltam após “Give It All”, um dos sucessos de uma carreira sólida. Sim, foi um show padrão do gênero, mas uma das escolhas mais acertadas do evento; não à toa levou o público à loucura, que berrava as letras e puxava coros a todo momento.

Com uma produção simples de palco, sem telão com imagens (apenas a logo da banda) ou cenário rebuscado, ainda que tivesse uma iluminação de qualidade, o líder Tim McIlrath dita a apresentação se baseando no poder de suas músicas e contando com a participação dos brasileiros, que atenderam prontamente a todos os pedidos. “Help Is on the Way” levanta até defunto, mesmo considerando que o som ainda estivesse sendo ajustado (volume geral um pouco baixo, que melhorou ao longo do show). “Like the Angel”, “Prayer of the Refugee” e “Savior” foram concisos em demonstrar o auge de sua criatividade. Antes da entrada do headliner, foi o show mais impactante da noite. Que voltem mais vezes!

Fotos / Setlist (Rise Against)

O Foo Fighters entrega mais um espetáculo vibrante que empolga a todos – Foto: Diego Padilha

Foo Fighters (★★★★★)

Poucas bandas pisam no palco com o jogo ganho desde os primeiros acordes; o Foo Fighters é uma delas. Donos de um catálogo entupido de hinos radiofônicos, o carisma intenso e a figura lendária do frontman Dave Grohl bastam para incendiar multidões — uma catarse que dispensa altas produções. Só que o potencial da nova e colossal tela do palco Mundo precisava ser devorado, e eles não fizeram por menos. Ocupando as laterais e o topo daquela imensa estrutura tecnológica, o show ganhou o reforço de efeitos visuais analógicos e psicodélicos que se moldavam à pegada de cada integrante. O resultado foi a fusão perfeita entre a crueza orgânica e o impacto da modernidade, dando uma roupagem inédita e robusta ao show que os fãs já conhecem.

Desde o primeiro acorde, o público manteve uma empolgação febril, empurrado por uma banda operando em rotação máxima. A sequência de abertura foi uma parede de som implacável: “All My Life”, “The Pretender”, “Times Like These” e “Rope” surgiram em versões esticadas, barulhentas e cheias de improviso. “Olhe para o tio de 50 anos do seu lado, ele sabe cantar isso”, disparou Grohl, evocando o espírito old school de um setlist democrático. Teve espaço para a garageira nostálgica de “Marigold” — com Dave relembrando que a faixa foi composta nos tempos de Nirvana, antes mesmo de fundar o Foo Fighters, carregando um riff áspero que ecoa a clássica “In Bloom” — e a raridade sombria e distorcida de “Exhausted”, faixa do álbum de estreia que costumava fechar as apresentações nos anos 90 e que nunca havia sido tocada em solo brasileiro.

O novo homem das baquetas, Ilan Rubin (ex-Nine Inch Nails e Paramore), que integrou a banda no final do ano passado, passou no teste de fogo com louvor, mostrando uma pegada pesada e precisa. O momento mágico, no entanto, foi abraçado com carinho na bela homenagem ao eterno Taylor Hawkins durante a execução de “Aurora”. Do novo disco, Your Favorite Toy (2026), mostraram apenas a ótima “Window”, preferindo gastar o suor com os tijolaços clássicos do post-grunge, como “My Hero”, “Learn to Fly”, “These Days” e até uma versão desacelerada e acústica de “Wheels”. No ápice de “Monkey Wrench”, Rubin justificou sua vaga com um solo de bateria visceral e milimétrico.

Em “The Sky Is a Neighborhood”, Grohl já dava sinais de desgaste físico após uma entrega física absurda, evidenciando o peso dos anos, mas sem perder um miligrama de sua fúria. Para sustentar a muralha sonora, o lendário Pat Smear garantiu a base suja nas guitarras, enquanto o baixista Nate Mendel e Ilan Rubin costuraram uma seção rítmica pesada e cavalar. O time se completou com os dedilhados certeiros de Chris Shiflett e as texturas ‘sintetizadoras’ de Rami Jaffee nos teclados. Aliás, com exceção de Rami, todos os integrantes assumiram os backing vocals, criando as harmonias melódicas que limpam a crueza do som e entregam a assinatura da banda.

O coro catártico e ensurdecedor de “Best of You” reverberou por cada centímetro da Cidade do Rock, unindo milhares de vozes em um hino de libertação. A joia da coroa, “Everlong”, encerrou a noite com aquela melancolia tão característica da era de Seattle. E assim se encerrou o primeiro dia do Rock in Rio 2026: a única noite poupada pela chuva, fiel às raízes do rock autêntico, celebrada por uma multidão extasiada que voltou para casa sem sobressaltos no transporte, lavada de alma e com a certeza de ter testemunhado um capítulo histórico.

Fotos / Setlist (Foo Fighters)

Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Approach Comunicação pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock. Nos vemos em 2028!


Confira as fotos gerais do primeiro dia (04/09) no Rock in Rio 2026:


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