Stryper, Bride e Narnia entregaram espetáculo impecável de rock cristão no Rio

Texto e Edição: Gustavo Franchini

Quando a música é genuína, de qualidade e gera sentimentos reais no ouvinte, ela é capaz de ultrapassar barreiras de preconceito e intolerância. E é justamente isso que ocorre com artistas do mundo gospel, white metal ou christian rock. O fato de abraçarem as mensagens de sua crença religiosa em suas letras e discursos pode sim afastar os mais céticos ou ateus radicais, ao mesmo tempo que atrai os que são bem-resolvidos e simplesmente gostam de boa música, independente de serem cristãos ou não. O maior exemplo prático disso rolou no dia 02 de agosto (sábado), já que bandas de peso do gênero se uniram para celebrar a vida, o amor e dedicação a Jesus Cristo através de canções belíssimas que conquistaram até os corações mais frios.

E não poderia ser diferente com nomes como Narnia, Bride e especialmente Stryper, esta última aproveitando a turnê para também comemorar os 40 anos do disco de estreia em um espetáculo que ficará para sempre na memória dos sortudos que tiveram a honra de comparecer ao evento.

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A mistura de hard rock com heavy metal do Bride deu o pontapé inicial na casa e, após uma vinda recente ao nosso país no ano passado, na qual fez um belo show com o Petra, conforme prometido na ocasião, eles voltaram com força total, ainda que não sendo uma apresentação completa. Mantendo a formação recente, contando com os irmãos Dale e Troy Thompson (vocal e guitarra, respectivamente), além dos brasileiros Alexandre Aposan (bateria; ex-Oficina G3) e Nenel Lucena (baixo), o diferencial se refletiu em algumas pequenas mudanças no setlist, como a inserção da inédita “Million Miles”, do álbum recém-lançado Vipers and Shadows (que estava à venda no local), tendo uma recepção excelente por parte do público que conferiu a canção pela primeira vez ali ao vivo.

Já era de se esperar uma banda afiada em entrosamento e uma performance avassaladora de Dale, mas acredito que os cariocas nunca vão se cansar de ouvi-lo cantar com tanta segurança, técnica e feeling, além de sustentar notas difíceis aos 61 anos de idade. O Axl Rose (bem melhorado) da cena cristã, diriam alguns, é e sempre foi um destaque nos shows da banda, mas o que faz em canções lindas como “Beast” e “Heroes”, somado à enérgica “Psychedelic Super Jesus”, é algo que se pode ser definido como uma intervenção divina.

A empolgação da plateia, que pode ser considerada cativa no concerne à banda (e o Bride tem um carinho especial pelos fãs tupiniquins), foi de se espantar, pois a intensidade se fez presente do início ao fim. Exemplo disso foi a reação na clássica “Would You Die For Me” do poderoso Snakes in the Playground (1992) e “Everybody Knows My Name” do Silence is Madness (1989). A conexão foi tão evidente que é bem provável que os americanos voltem para cá no ano que vem e passem a considerar o Brasil um destino certo em quase todas as turnês pela América Latina. Esperamos (e oremos) que sim!

Os suecos do Narnia são velhos conhecidos dos fãs brasileiros, já que tiveram várias passagens pelo país, em diversos formatos, sempre atraindo um bom público e mantendo-se fiel às raízes com seu power metal melódico que flerta com tradicional em ritmo cadenciado. Tendo como linha de frente o carismático vocalista Christian Rivel-Liljegren, que se doou muito no palco do início ao fim do show, despejando energia, interação com todos e, claro, pura devoção ao Rei dos Reis, a banda realmente transmite uma vibe especial.

Ao condensar o setlist para caber em aproximadamente 45 minutos de apresentação, o quinteto foi inteligente nas escolhas de canções diversificadas que abrangem momentos marcantes de sua carreira e ainda testar uma inédita, “Ocean Wide”, que fará parte de um álbum a ser lançado no ano que vem. Claro que não teve o mesmo impacto de hinos do white metal como “You Are the Air That I Breathe”, “Living Water” e “I Still Believe”, mas obteve uma boa impressão e definitivamente mantiveram a tradição no que diz respeito à sonoridade.

É inegável que o auge veio com “Long Live the King”, após um belo discurso emocionado de Christian, na qual ele decidiu abrasileirar o refrão ao pedir que a plateia cantasse em português, criando um vínculo ainda mais forte com todos. O guitarrista Carl Johan “CJ” Grimmark praticamente deu uma aula de técnica e pegada nas seis cordas, enquanto Martin Härenstam destrinchou as teclas de seu sintetizador Nord Electro, que por sinal tinha um timbre magnífico. O baixista Jonatan Samuelsson, além de dividir diversos vocais com Christian, também conduzia toda a base percussiva em conjunto com o batera Andreas Johansson. Que voltem após o lançamento do novo álbum; estaremos de braços abertos como o Cristo Redentor!

Em termos de popularidade e sucesso comercial no gênero de rock cristão, o Stryper é provavelmente líder incontestável, não só pela longevidade de sua discografia, mas também pelo simples fato de sua mera existência ter sido fundamental para que muitas outras bandas que vieram depois, se sentissem confiantes para se lançar ao mercado sem tanto receio da resposta do público em geral. Afinal, nenhum artista quer se limitar a um nicho e, no intuito de espalhar a palavra do Senhor, quanto mais pessoas de fora tiverem acesso às mensagens das letras, melhor. E é a grande missão dos californianos, que carregam como marca registrada as cores amarelo e preto, seja nas roupas, nos instrumentos (até o microfone) e acessórios.

Carregar o visual glam dos anos 80 em uma fase de ouro do hard rock mundial, não é uma tarefa fácil para uma banda que não se aliava aos excessos da época de outros grandes nomes. Atualmente, o estilo não tem tanta força, mas após o intervalo na carreira e a volta triunfante, o Stryper lançou álbuns com boa repercussão e, considerando a tônica da turnê, se tornou difícil a escolha de composições que iriam fazer parte do repertório. No resultado final, poucos álbuns não estavam lá, como Reborn (2005 ) e o mais recente When We Were Kings (2024), enquanto que o clássico trio Soldiers Under Command (1985), To Hell with the Devil (1986) e In God We Trust (1988) fizeram a alegria dos presentes.

Com a substituição de Oz Fox por motivos de saúde, Howie Simon ergueu a bandeira guitarrística e cumpriu bem seu papel. Os irmãos Michael e Robert Sweet, respectivamente voz/guitarra e bateria, mantém o alicerce do grupo com o “novato” baixista Perry Richardson, que integra a banda desde 2017. Talvez pelos amplificadores Marshall ou timbragem dos equipamentos, o som do quarteto se mostrou potente, afiado e bem definido durante toda a apresentação. O entusiasmo do público em canções como “In God We Trust”, “Calling on You”, “Free”, “Always There for You” e “No Rest for the Wicked” era bem visível, cantadas a plenos pulmões, sorrisos nos rostos, elogios no ar diante das performances dos integrantes desta formação e, principalmente, muitas mãos unidas em prol do louvor límpido de uma noite memorável.

Após algumas bíblias, cards e palhetas jogadas ao público (que milagrosamente este que vos fala conseguiu pegar uma), algo recorrente em shows da banda, o foco foi a música e quase que uma redenção pelo intervalo de tempo que não tocavam no país e, mesmo sendo o último show de toda a turnê, a entrega foi absoluta, chegando a escorrer lágrimas de alguns presentes, tamanha a honestidade em cima do palco. “No Rest for the Wicked”, “The Valley”, “Yahweh” também se destacaram, mas como sempre o ápice se solidificou em “To Hell With the Devil”, praticamente uma oração roqueira que resume toda a missão cumprida. Sem sombra de dúvidas somos abençoados com a honra de testemunharmos mais uma ode à fé e boa música. Que venham mais vezes!

Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Acesso Music, Venus ConcertsEn Hakkore Records pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.


Veja a galeria de fotos do show (Stryper/ RJ):


Setlist Stryper:
1 – In God We Trust (versão Reborn)
2 – Revelation
3 – Calling on You
4 – Free
5 – Sorry
6 – All For One
7 – Always There for You
8 – Divider
9 – No Rest for the Wicked
10 – No More Hell to Pay
11 – More Than a Man
12 – The Valley
13 – Yahweh
14 – Surrender
15 – Soldiers Under Command
Bis
16 – Sing-Along Song
17 – To Hell With the Devil


Veja a galeria de fotos do show (Bride/ RJ):


Setlist Bride:
1 – Rattlesnake
2 – Would You Die For Me
3 – Beast
4 – Million Miles
5 – Everybody Knows My Name
6 – Scarecrow
7 – Psychedelic Super Jesus
8 – Heroes


Veja a galeria de fotos do show (Narnia/ RJ):


Setlist Narnia:
1 – Rebel
2 – No More Shadows From the Past
3 – You Are the Air That I Breathe
4 – MNFST
5 – Ocean Wide
6 – Long Live the King
7 – I Still Believe
8 – Living Water


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