Texto e Edição: Gustavo Franchini

No mundo do metal progressivo, há o antes e depois da carreira dos americanos do Symphony X, especialmente após o lançamento do seu terceiro álbum (The Divine Wings of Tragedy, 1997), que marcou gerações e influenciou uma quantidade absurda de músicos ao redor do globo. O impacto da discografia da banda é tão colossal que, mesmo os (poucos) que não curtem o seu som, ainda assim reconhecem a importância do simples fato de eles existirem. E isso foi comprovado na prática em noite de domingo (22), no Rio de Janeiro, tendo uma casa praticamente lotada de novos e antigos fãs.
Comemorando os 30 anos de carreira (na realidade são 32, visto que o álbum de estreia é de 1994 e sem considerar a fita demo), era de se esperar um apanhado de toda a sua discografia, o que não aconteceu, pois infelizmente ignoraram o álbum homônimo e o ótimo The Damnation Game (1995), puramente por não serem populares. Ainda assim, prepararam surpresas (nem tanto assim, já que divulgaram o setlist) que agradaram grande parte dos presentes.
A abertura ficou por conta dos niteroienses do Scarlet Horizon (não confundir com a banda chinesa de mesmo nome), demonstrando com certa qualidade um prog/power e músicas de seu único disco, que parecem ter agradado o público. Logo depois, o guitarrista colombiano Andy Addams e sua jaqueta brilhante (também tecnológica) entra em power trio pra esbanjar simpatia com seu medley de músicas conhecidas do público, como “Separate Ways” (Journey), “Tornado of Souls” (Megadeth) e com direito até mesmo a “Pegasus Fantasy” (tema do anime Os Cavaleiros do Zodíaco, que ficou eternizado aqui no Brasil com a versão gravada por Edu Falaschi), arrancando aplausos de todos. Vejam ao final da resenha a galeria de fotos de ambas as bandas.
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Com um certo atraso, a ansiedade já estava tomando conta do Sacadura 154, que logo via uma boa parcela se aglomerando perto das grades para tentar ficar o mais perto possível do quinteto que, desde a sua primeira vinda nos idos dos anos 2000, sempre foi muito respeitado no país. Curioso que o Symphony X tenha colocado uma curta introdução no telão com todos os álbuns da banda em animações estilo IA, ao invés de investir em uma produção de palco mais aprimorada, mas quem conhece bem a banda sabe que eles sempre preferiram se manter mais no underground.
A trilha sonora no PA e as luzes apagadas anunciam que o melhor estava por vir. Eis que surge Russell Allen (vocal), os “três” Michael; Romeo (guitarra), Pinnella (teclado) e LePond (baixo), além de Jason Rullo (bateria). Bastou os primeiros segundos do riff de “Of Sins and Shadows”, um dos hits dos mestres do progressivo, e pronto: a plateia já estava extasiada. Não é preciso muito esforço para tal, pois a banda é conhecida pela performance irretocável ao vivo, o que inclusive é motivo de dúvidas do por que nunca lançaram uma gravação oficial em vídeo e afins. Em entrevista recente para um veículo brasileiro, Romeo disse que “quem sabe depois do novo álbum”. Sim, terá um novo álbum após 11 anos desde o mais recente Underworld. Contudo, vamos deixar esse assunto para o final da resenha.
Presença certa em todos os shows da banda, a excelente “Sea of Lies” fez com que até mesmo quem estava tímido resolvesse cantar o refrão junto com Allen, o que se tornou ainda mais evidente na sensacional “Out of the Ashes”, uma das melhores da vasta lista de petardos do quinteto. Vale ressaltar que, mesmo sabendo que o timbre e interpretação poderosa do vocalista é o que mais chama a atenção de modo geral (algo comum no universo musical), é o guitarrista Romeo como brilhante compositor que está por trás de todos os mecanismos que rodam a máquina chamada Symphony X, sendo responsável por praticamente todo o arcabouço sonoro que gerou a identidade da banda. E, como o próprio Allen fala no meio do show, “esse cara aqui ao meu lado nunca se importou em ser um guitar hero, e sim um criador de músicas épicas”. O mais irônico disso tudo é que Romeo é um guitarrista fora da curva, em especial no aspecto técnico, sendo muitas vezes comparado a Yngwie Malmsteen e outros virtuosos.
Para quem acompanha religiosamente o Symphony X, sabe que a próxima canção, a belíssima balada “The Accolade” é uma das mais esperadas por todo fã da boa música. Só que não pára por aí: eles resolveram adicionar um excerpt de outro clássico, o trecho de linha vocal mais emocionante de “The Divine Wings of Tragedy”, chamado “Paradise Regained”, que fez escorrer lágrimas dos desavisados. Que momento! Talvez o mais marcante de toda a apresentação.
Em seguida veio a pedrada que tirou literalmente todos do chão, a apoteótica “Smoke and Mirrors”, do Twilight in Olympus (1998), tendo o riff avassalador e um dos vocais mais difíceis de executar da banda (se é que dá pra dizer que alguma canção deles é abaixo de difícil), jogando o refrão pra galera, que parecia já rouca de tanto berrar com vontade tentando acompanhar um dos melhores, se não o melhor vocalista de metal da atualidade. Russell Allen, aos 54 anos, exibe boa forma, feeling, técnica (natural, segundo ele mesmo em workshows) e canta no mesmo tom original um show repleto de músicas desafiadoras para qualquer cantor profissional que se preze. Poucos ousam cantar um repertório tão complexo para a voz como ele, e seu carisma consegue ser ainda mais forte, conquistando a todos por onde passa. Não dá pra negar; Deus realmente o abençoou com uma voz que poderia se igualar aos anjos no paraíso. E a boa notícia é que ele está pra lançar um novo (terceiro) álbum do projeto Allen/Olzon (junto com Anette Olzon, ex-Nightwish) e outras novidades ainda este ano. E o público agradece!

E chegou a hora de mais um hit, a épica “Evolution (The Grand Design)”, do álbum que é considerado por muitos uma verdadeira obra-prima, o injustiçado V: The New Mythology Suite (2000), que realmente merecia mais atenção nos setlists da banda. A prova disso é que a casa inteira cantou, pulou, sorriu e o headbanging foi insano durante toda a duração da mesma. Certamente foi a que mais empolgou a todos. E a próxima com sua guitarra limpa e lindo piano logo no começo seria um presente para os que não tiveram a sorte de estar na saudosa Cia do Brasil há 26 anos, na capital paulista, quando tocaram “Communion and the Oracle”, uma escolha que por si só já valeria o ingresso.
Aliás, essa turnê acertou em cheio ao valorizar mais os teclados de Pinella, ao invés de modernizar tanto o som tendo sempre a guitarra como protagonista absoluta, o que deveria se repetir no futuro, se aproximando mais do lado neoclássico de outrora. Rullo acrescentou viradas extras na batera, perceptíveis para quem conhece todo o seu competente trabalho. Por outro lado, o som do baixo de LePond foi um pouco prejudicado pela mesa, que não valorizou as nuances de suas frases, faltando clareza de notas e mais peso.
Então, o momento das pedradas chega com “Inferno (Unleash the Fire)”, do maravilhoso The Odyssey (2002), contando com aquele famoso riff com harmônicas, enlouquecendo completamente o público, que foi recíproco a todo momento. A deixa antes do bis veio com o single do álbum de 2015, “Nevermore”, que surpreendentemente obteve participação animadíssima dos que estavam na pista. Um detalhe interessante é que a banda tocou sem trilhas pré-gravadas, sem samplers, sem metrônomo, ou seja, o show foi genuinamente orgânico, algo que hoje em dia está em falta na indústria musical.
Sempre regado à mistura de whisky e cerveja, Allen fez um discurso sobre a comemoração de toda a trajetória da banda e afirma com ênfase que todos os integrantes são caras especiais pra ele, que unidos são essenciais para o Symphony X ser o que é. A realidade é que a amizade é o centro de tudo e era isso que eles queriam brindar. E com toda a humildade, conclui que se não fosse o público apreciando a arte da banda e comparecendo aos shows, eles não teriam se mantido por tanto tempo juntos e não estariam até hoje fazendo o que eles amam fazer. Esse foi o gancho perfeito para entrar os acordes de “Without You”, que foi celebrada em uníssono por todos. Que noite mágica!
A apresentação estava chegando ao fim e os tambores rufaram para a única do Iconoclast (2011), a cadenciada “Dehumanized” com vocais vociferados por Allen, mostrando o lado puro heavy metal da banda, quebrando tudo no palco. Pra encerrar, “Set the World on Fire (The Lie of Lies)”, do Paradise Lost (2007), no intuito de fechar o ciclo em alta, deixando aquele ‘gostinho de quero mais’. E assim o Symphony X anunciou que o álbum de inéditas será lançado ainda este ano, que estão no processo de pré-produção e finalizando composições, prometendo voltar para o Brasil para a próxima turnê de divulgação e novamente reafirmando o amor pelos brasileiros. O que mais podemos desejar? Vida longa aos mestres do progressivo!
Nossos agradecimentos a todos os responsáveis por tornarem o evento possível e, em especial, para a Rider2 e TopLink pela parceria, confiança e credibilidade dada mais uma vez à equipe do Universo do Rock.

Veja a galeria de fotos do show (Symphony X/RJ):




















Veja a galeria de fotos do show (Andy Addams/RJ):







Veja a galeria de fotos do show (Scarlet Horizon/RJ):














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